10 mitos da esclerose múltipla

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Por Maurício Brum, da Redação AME/CDD

 

Você certamente já ouviu falar da esclerose múltipla. Mas, até pelo nome da doença e pelo desconhecimento sobre ela, sobram mitos a seu respeito. De olho no Agosto Laranja e na campanha #sEMtabu, ouvimos a neurologista Raquel Vassão, médica da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte e consultora da AME, para desfazer os principais erros que ainda persistem em torno da esclerose múltipla. 

Confira abaixo:

1) É coisa de idoso

Ao contrário! A maioria dos diagnósticos de esclerose múltipla ocorre em pessoas jovens, com uma média que vai dos 20 aos 40 anos. “É claro que é possível haver diagnósticos antes e depois disso, mas é menos comum nas faixas etárias mais extremas”, esclarece a neurologista. 

A confusão tem a ver com o fato de que muitas doenças associadas ao avanço da idade tinham (ou ainda têm) denominações parecidas: no passado, era comum dizer que uma pessoa com demência estaria “esclerosada”. 

Mas, na verdade, o termo esclerose significa “cicatriz”, e acaba sendo usado em diferentes ramos da medicina – no caso da EM, as inflamações causadas pela doença deixam cicatrizes no sistema nervoso central em função da destruição da mielina, a “capa” que protege as células nervosas.

2) É doença de homem

Também é, mas, na verdade, muito mais mulheres são afetadas. “A estatística varia de duas a três mulheres para cada homem na forma remitente recorrente da doença, que chega a 90% dos pacientes diagnosticados”, aponta Raquel Vassão.

Na forma progressiva, mais rara, aí sim os casos têm proporção semelhante entre os dois sexos. 

Ainda não se sabe a razão exata para haver mais diagnósticos em mulheres, mas a EM não é a única doença autoimune com essa característica. Questões hormonais estão entre as hipóteses.

3) Não pode engravidar

A esclerose múltipla não impede que as mulheres acometidas pela doença engravidem, nem inviabiliza uma gestação saudável. O que exige cuidado são algumas medicações utilizadas, que podem influenciar diferentes pontos desse processo – da concepção à amamentação. 

“Alguns medicamentos trazem riscos, mas muitos já têm comprovação de que são seguros”, explica Vassão. 

O ideal é que a gravidez seja planejada, com orientação das equipes de neurologia e obstetrícia, para saber a melhor maneira de remanejar os remédios durante esse período essencial à vida. Mas nada de abrir mão do sonho de ter um bebê. “A mulher com EM não só pode como deve engravidar, caso queira”, tranquiliza a médica.

4) EM só afeta pessoas brancas

É inegável: quando se consideram apenas as estatísticas da doença, a prevalência é muito maior em populações brancas que vivem no Hemisfério Norte, o que indicaria uma maior propensão entre as pessoas brancas. Ainda assim, outros grupos étnicos também têm a doença, e é possível que seus diagnósticos estejam sub-representados por uma maior dificuldade de atendimento nos serviços de saúde, em função de questões socioeconômicas. 

“Há fatores genéticos, associados à cor e a origem, mas novos estudos levantam a questão se também não é um problema de acesso”, reforça Raquel Vassão. 

Uma pesquisa feito com veteranos de guerra norte-americanos, por exemplo, mostrou que a prevalência da doença era maior entre homens e mulheres negros que haviam servido no Exército do que na população em geral. Isso, segundo algumas análises, seria consequência direta de uma maior facilidade de diagnóstico, já que os militares de lá contam com o sistema de saúde das forças armadas em um país sem acesso universal ao atendimento médico. 

Em 2015, uma revisão também demonstrou uma escassez de estudos que ajudariam a informar sobre a doença em populações não brancas: de 60 mil artigos sobre EM cadastrados na plataforma PubMed até aquela data, apenas 136 tinham foco em populações negras e latinas.

5) Não tem tratamento

Infelizmente, ainda não há cura para a esclerose múltipla – mas tratamento existe, sim! “Cada vez mais pessoas estão vivendo mais e melhor”, celebra Raquel Vassão. 

Como costuma ocorrer quando o assunto é saúde, um diagnóstico precoce aumenta as chances de um convívio amistoso com a doença: quanto mais cedo, maior a possibilidade de evitar complicações. 

Cada caso exige avaliação individual junto à equipe médica para definir o melhor caminho. “O tratamento não é só medicamentoso, mas também envolve estratégias de vida saudável que ajudam na perpetuação do bom estado desses pacientes”, destaca.

6) Todo paciente vai precisar de cadeira de rodas

Não é um desfecho garantido para ninguém – e cada vez menos pessoas com EM estão enfrentando necessidade de apoio para locomoção, mesmo após anos de convívio com ela. 

“Existem casos fora da curva que evoluem rapidamente, mas são mais raros. Estamos vendo populações envelhecendo melhor com a doença. Antigamente, havia uma máxima que dizia que, com dez anos de diagnóstico, já seria necessário de apoio para andar. Hoje, tenho paciente com 20 anos de diagnóstico que treina triatlo”, compara Vassão. 

Aqui também vale reforçar a mensagem do diagnóstico precoce: quanto mais cedo se detecta, menor o risco de complicações motoras.

7) Esclerose múltipla destrói a cognição e a memória

Mais uma vez, identificar a doença e iniciar o tratamento o quanto antes são os maiores aliados para reduzir as chances de problemas tipicamente associados à EM no passado. 

Não existe resposta que valha para todos, e algumas versões mais agressivas da doença podem ter impactos mais severos, mas também são casos raros. 

“A maior parte das pessoas consegue ficar sem tanto impacto na cognição: o cérebro não fica incapaz. Temos artistas e doutores com EM”, exemplifica a médica.

8) Indivíduos com EM não podem tomar vacina

É ainda mais importante saber disso após a pandemia de covid-19: você pode e deve se vacinar, pois é uma maneira de proteger a si mesmo e a quem está ao seu redor. 

“O que se recomenda evitar ou ao menos tomar muito cuidado são vacinas que envolvem vírus vivos”, explica Vassão. Esse tipo de imunizante pode desencadear uma resposta do sistema imunológico ligada a riscos de surtos em quem tem EM – é o caso, particularmente, de vacinas contra a febre amarela, com um histórico mais conhecido de reações desse tipo e que, portanto, exigem um cuidado especial. 

Também vale ouvir seu médico: se você teve uma crise recente de EM, a recomendação é esperar em torno de seis meses para tomar a vacina. É uma forma de evitar que um novo surto coincida com uma eventual reação à inoculação. Mas, de forma geral, imunizantes com vírus inativado ou baseados em RNA mensageiro, como os que se tornaram comuns no combate ao coronavírus, não estão contraindicados.

9) Não pode praticar exercício

Evitar esforço físico era uma recomendação comum (e compreensível) até alguns anos atrás. Mas novos estudos mostram que os exercícios, na verdade, também são vantajosos para quem tem esclerose múltipla – já que a atividade é fundamental para combater o sedentarismo, associado a uma série de outras doenças. 

A maior preocupação era a chamada Síndrome de Uhthoff, um fenômeno que afeta parte das pessoas com EM e está associada a crises causadas pela elevação da temperatura do corpo. Nesses casos, para tirar proveito da malhação sem correr mais riscos, o ideal é priorizar locais e momentos mais frescos. 

“As pesquisas têm demonstrado que o exercício regular, acima de 50 minutos semanais divididos em pelo menos três dias, leva a uma melhor evolução da EM e a surtos que se recuperam mais facilmente”, diz Vassão.

10) É possível saber de onde veio a doença e evitá-la

“A origem da EM provavelmente envolve uma combinação de fatores genéticos e ambientais”, resume Raquel Vassão. 

Mas, com o conhecimento científico atual, ainda não há como apontar uma causa específica – e, portanto, não há fórmula mágica para evitá-la. O que temos são pistas oferecidas pelos estudos: além da parte genética associada ao aparecimento da doença, fatores como deficiência de vitamina D, obesidade infantil, tabagismo e sedentarismo, além de histórico de algumas infecções (particularmente pelo vírus Epstein-Barr, que causa a mononucleose) estariam relacionados a uma maior propensão a desenvolver a EM.

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