Como é feito o diagnóstico da esclerose múltipla?

Conteúdo: equipe AME

Em resumo: não existe um exame único para diagnosticar a esclerose múltipla. O neurologista junta a história dos sintomas, o exame neurológico e exames como a ressonância magnética e o líquor, e descarta outras doenças. Ele segue os critérios internacionais de McDonald, atualizados em 2024 e publicados em setembro de 2025.

Se você chegou até aqui, talvez esteja passando por exames, esperando um resultado ou acompanhando alguém nessa fase. Sabemos que esse momento costuma vir com muitas perguntas e uma boa dose de ansiedade. Por isso, preparamos este guia para explicar, passo a passo, como funciona o diagnóstico da esclerose múltipla (EM).

Vamos começar pelo principal: não existe um exame único que, sozinho, confirme a EM. O diagnóstico é feito por um neurologista, que junta várias informações:

  • A sua história: quais sintomas você sentiu, quando começaram e como mudaram.
  • O exame neurológico: feito no próprio consultório, avalia força, reflexos, sensibilidade, equilíbrio, coordenação e visão.
  • Exames complementares: principalmente a ressonância magnética. Dependendo do caso, também podem ser pedidos o exame do líquor, exames do nervo óptico e exames de sangue.

Ao mesmo tempo, o neurologista precisa descartar outras doenças que podem causar sintomas parecidos. É por isso que, às vezes, o caminho até o diagnóstico leva um tempo.

Quais sinais podem levar a pessoa ao neurologista?

A EM não começa igual para todo mundo. Cada pessoa percebe sinais diferentes, e eles podem ser leves ou mais intensos. Alguns dos mais comuns são:

  • Formigamento ou dormência em uma parte do corpo, como um braço, uma perna ou um lado do rosto.
  • Alterações na visão, como perda ou embaçamento da visão em um olho, às vezes com dor ao mexer o olho. Isso pode ser sinal de neurite óptica, uma inflamação do nervo que liga o olho ao cérebro.
  • Fraqueza em braços ou pernas.
  • Perda de equilíbrio ou tontura.
  • Visão dupla.

Esses sinais também podem ter muitas outras causas, a maioria delas sem relação com a EM. Por isso, não dá para tirar conclusões sem uma avaliação médica. Se esses sinais continuarem ou voltarem a

aparecer, procure ajuda médica e conte com detalhes o que você está sentindo. Se um sinal surgir de repente ou for muito forte, como uma perda de visão, procure atendimento logo.

Como é a primeira consulta com o neurologista?

A primeira consulta costuma ser uma conversa longa. O neurologista vai querer entender a sua história com calma: quando os sintomas começaram, como eles mudaram, se você já teve algo parecido antes e como está a sua saúde de forma geral.

Depois, ele faz o exame neurológico. É um exame feito no próprio consultório, sem aparelhos complexos, que avalia força, reflexos, sensibilidade, equilíbrio, coordenação e visão. Com base nessa conversa e no exame, o neurologista decide quais exames complementares pedir.

Uma dica: antes da consulta, anote os sintomas que você teve, com as datas aproximadas, e leve os exames que já tenha feito. Isso ajuda muito o médico a montar o quadro completo.

Quais exames podem ser pedidos?

Cada caso é único, e é a equipe médica que decide quais exames fazem sentido para você. Os mais usados são:

Ressonância magnética do cérebro e da medula. É o exame mais importante no diagnóstico da EM. Ela produz imagens detalhadas do sistema nervoso e mostra se existem lesões, que são áreas onde houve inflamação ou cicatriz. O neurologista observa onde essas lesões estão e como elas se parecem, porque as lesões da EM costumam ter características próprias. Em alguns centros, a ressonância também procura o "sinal da veia central", uma pequena veia no meio da lesão que ajuda a diferenciar a EM de outras doenças.

Exame do líquor. O líquor é o líquido que envolve e protege o cérebro e a medula. Para coletá-lo, é feita uma punção na parte baixa das costas. O exame procura sinais de inflamação comuns na EM, como as bandas oligoclonais ou um índice alto de cadeias leves kappa. Ele ajuda a reforçar ou afastar o diagnóstico.

Exames do nervo óptico. O potencial evocado visual e a tomografia de coerência óptica (OCT) avaliam o nervo óptico, que leva as imagens do olho até o cérebro. Eles mostram se esse nervo já foi afetado por alguma inflamação, mesmo que a pessoa não tenha percebido.

Exames de sangue. Não existe um exame de sangue que confirme a EM. Mas eles são importantes para descartar outras doenças com sintomas parecidos.

Quais doenças podem ser confundidas com a esclerose múltipla?

Várias doenças podem causar sintomas e lesões parecidos. As mais importantes de descartar são a neuromielite óptica (NMOSD) e a doença associada ao anticorpo anti-MOG (MOGAD). Elas têm tratamentos diferentes, e alguns remédios da EM podem piorar a neuromielite. Por isso, o neurologista pode pedir exames de sangue específicos, como os anticorpos anti-aquaporina-4 e anti-MOG. Também entram na lista deficiência de vitamina B12, infecções, outras doenças autoimunes e alterações nos vasos do cérebro.

Como o neurologista chega à conclusão?

Para confirmar a EM, o neurologista procura sinais de que a inflamação atingiu mais de uma região do sistema nervoso. Para isso, ele segue um conjunto de orientações internacionais chamado critérios de McDonald, criado por especialistas do mundo todo.

Esses critérios foram revisados em 2024 e publicados na revista The Lancet Neurology em setembro de 2025. As mudanças foram pensadas para tornar o diagnóstico mais rápido e mais preciso:

  • O nervo óptico passou a contar como uma das regiões avaliadas. Agora são 5 regiões do sistema nervoso.
  • Em alguns casos, não é mais preciso mostrar que as lesões surgiram em momentos diferentes. Quando há lesões típicas em várias regiões, ou quando o líquor ou a ressonância mostram sinais típicos da EM, o diagnóstico pode ser feito já na primeira avaliação.
  • Novos marcadores foram aceitos: o índice kappa no líquor, o sinal da veia central e as lesões com borda paramagnética na ressonância.
  • Os mesmos critérios valem para a forma com surtos e para a forma progressiva.
  • Há orientações específicas para crianças, para pessoas com mais de 50 anos e para quem tem doenças dos vasos sanguíneos, situações em que a EM pode ser mais difícil de diferenciar de outras condições.

E no SUS? O Protocolo Clínico do Ministério da Saúde para EM (PCDT, de 2024) ainda usa os critérios de McDonald de 2017. Na prática, os laudos pedidos para acesso aos medicamentos no SUS seguem a versão de 2017 até que o PCDT seja atualizado.

Para quem já tem o diagnóstico, uma boa notícia: na maioria dos casos, essas mudanças não alteram nada. Se tiver dúvidas sobre o seu caso, vale conversar com o seu neurologista.

O que são a Síndrome Clínica Isolada e a Síndrome Radiológica Isolada?

Durante o diagnóstico, você pode ouvir esses dois nomes. Eles descrevem situações que pedem acompanhamento.

Síndrome Clínica Isolada (CIS). É quando a pessoa tem um primeiro episódio de sintomas neurológicos que dura pelo menos 24 horas. Esse episódio pode ou não ser o começo da EM. Com os critérios atuais, muitas pessoas que antes recebiam o nome de CIS já podem ter o diagnóstico de EM no primeiro episódio, se os exames mostrarem sinais típicos. O acompanhamento regular com o neurologista é o que mostra como a situação evolui.

Síndrome Radiológica Isolada (RIS). É quando uma ressonância, feita por outro motivo (como enxaqueca ou uma batida na cabeça), mostra lesões parecidas com as da EM, mas a pessoa não tem nenhum sintoma. Com os critérios de 2024, algumas pessoas nessa situação podem receber o diagnóstico de EM mais cedo, quando há outros sinais típicos nos exames. Isso permite começar o acompanhamento antes.

Quanto tempo leva o diagnóstico?

Não existe um prazo certo. Para algumas pessoas, o diagnóstico sai em poucas semanas. Para outras, leva meses, porque é preciso fazer vários exames, esperar resultados e descartar outras doenças.

Essa espera pode ser difícil. É natural sentir ansiedade, medo ou até frustração. Se isso acontecer com você, saiba que não está sozinha nem sozinho. Conversar com pessoas que já passaram por essa fase pode ajudar muito.

E se o diagnóstico for confirmado?

Receber o diagnóstico de EM pode trazer muitos sentimentos ao mesmo tempo, e todos eles são válidos. Algumas pessoas sentem alívio por finalmente ter uma resposta. Outras sentem medo do que vem pela frente. Muitas sentem as duas coisas.

O mais importante é saber que hoje existem várias opções de tratamento e uma rede de apoio para caminhar junto com você. Começar o tratamento cedo ajuda a proteger o sistema nervoso. Na AME, reunimos informação confiável e uma comunidade de pessoas que vivem com EM, familiares e cuidadores.

Para familiares e pessoas próximas

Se você está acompanhando alguém nessa fase, a sua presença faz diferença. Ir junto às consultas, ajudar a anotar as dúvidas e ouvir sem julgar são formas simples e valiosas de apoiar. Lembre-se de perguntar à pessoa do que ela precisa, em vez de decidir por ela.

Para quem já convive com a esclerose múltipla

Se você recebeu o diagnóstico há mais tempo, a sua experiência pode ajudar muito quem está começando agora. Nos grupos da AME, essa troca acontece todos os dias.

Fontes: ECTRIMS — Revisões dos critérios de McDonald publicadas (set/2025) · Practical Neurology — McDonald 2024 na Lancet Neurology · EMJ — Os novos critérios de McDonald · Ministério da Saúde — PCDT de Esclerose Múltipla (2024) · Artigo original: Montalban X et al. Diagnosis of multiple sclerosis: 2024 revisions of the McDonald criteria. The Lancet Neurology, 2025 · acessar o artigo

Veja também: O que é a esclerose múltipla?