Uns vários leões por dia

Por Bárbara

 

Desde que recebi o diagnóstico tive a impressão que precisava sempre estar a frente. Não penso nisso como uma cobrança exagerada, existe um equilíbrio com meus limites. Vejo isso da forma mais positiva possível: estar a frente pra mim significa me libertar, me libertar de amarras que antes me prendiam ao medo e ao conforto.

 

Sabe os alpinistas? Sim, aquelas pessoas que escalam montanhas, montes e fazem de suas vidas uma eterna subida em prol de objetivos que a maioria considera impraticável?

Eles sempre tiram aqueles fotos lá no topo, quando finalmente alcançam o “fim”.  Eles saem  nessas fotos sempre sorrindo, triunfantes pelo objetivo atingido. Eles não tiram fotos do caminho e existe uma razão pra isso. Quem gosta de lembrar do processo, do sofrimento, da dor?

 

Nós somos assim também: a gente quer se superar porque realmente precisa disso. Não porque necessariamente gostamos. A gente não quer fracassar. E isso acontecer, a gente quer dizer que foi lutando, brigando, suando pela vitória. Com a gente nada é de mão beijada, nada é entregue. Quando a gente não se entrega a EM, a gente passa a não se entregar a mais nada. Nem ao conforto, nem ao medo, nem aos desejos alheios.

Entendi que dores são sim parte do processo. O topo não é um só. E várias fotos podem ser tiradas. As paisagens também mudam. Dias feios existem. A gente pode ao menos tentar fazer o diferente e brilhar.

 

A subida é implicável. A dor do próximo degrau ninguém tira foto dessa fase, porque a gente não quer se lembrar. A gente quer se lembrar da vista, do ponto mais alto, de ficar sem fôlego com a beleza da paisagem, da vitória, é isso que faz a gente subir todos os dias. E a nossa montanha é do tamanho da nossa montanha. Isso não quer dizer que uma é mais fácil que a outra. Grandes alpes podem ter a subida mais tranquila que pequenos morros, cheios de desvios e buracos no caminho. E no final a gente sempre percebe que vale a pena dor e isso é muito louco. Isso vale qualquer coisa.

 

Pacientes de Esclerose Múltipla gostam de jogar e mais ainda, gostam de vencer. Assim que vencemos, começamos um novo jogo, um novo dia. Todo novo dia é um novo jogo. Somos viciados em vencer, em querer vencer o dia, em subir montanhas, escalar montes e tirar o melhor de nós mesmos. Do processo a gente não quer lembrar, mas ele tá lá, existe. As fotos sorridentes existem mas os sorrisos carregam lágrimas e suor. De todos os envolvidos.

 

O que eu quero dizer com isso tudo é que sim, somos fortes. Nossos leões são grandes. E são vários. Nossos dias são alpes gigantes e pra gente só importa vencer. Mas o processo existe. E tá tudo certo não ser sempre perfeito, lindo e limpo. Tem dias diferentes, nublados. Tem processos que precisam ser reiniciados. Tem processos que não dão em lugar nenhum. Assumir erros e recomeçar às vezes também é necessário e super válido. Ninguém precisa ser super homem ou super mulher. Se a subida tá cansativa, vale chamar o amigo, pedir uma ajuda ou até mesmo criar rotas alternativas. O que não vale é desistir, porque quando a gente não se entrega pra EM, a gente não se entrega para mais nada!