O papel do sentimento de raiva para pessoas com EM

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O sentimento de raiva pode ser uma complicação emocional da Esclerose Múltipla (EM) que se acredita resultar, pelo menos parcialmente, da própria condição. Manter os pensamentos de raiva reprimidos também está associado a uma pior qualidade de vida, de acordo com um estudo (1).

Ao entender mais sobre o papel da raiva na Esclerose Múltipla e como ela pode ser manejada, a pessoa com EM já está dando o primeiro passo para usá-la com mais qualidade, melhorando sua saúde física e mental.

Nota da AME: Embora existam pesquisas que digam que internalizar sentimentos de raiva quando se tem Esclerose Múltipla esteja ligado a uma pior qualidade de vida, lembre-se de que não há problema em ficar com raiva. Não julgue tanto a si mesma por sentir isso. Se você perceber que está se culpando quando estiver com raiva, saiba que esse sentimento passará, que não ele não define você, que você não está sozinha com ele e que faz parte da vida. Leia mais no site da CDD.

O sentimento de raiva e a Esclerose Múltipla

No estudo, a raiva foi avaliada em 157 participantes com esclerose múltipla (1). Participantes com tipos de EM Remitente Recorrente (EMRR), Primária Progressiva (EMPP) ou Secundária Progressiva (EMSP) foram todos incluídos.

O sentimento de raiva nesses participantes foi medido usando o Inventário da Expressão da Ira Estado-Traço (STAXI-2), que é uma escala de quatro pontos, onde as pontuações mais altas indicam a presença de raiva. Neste teste, 196 itens são divididos em seis escalas. Quatro dessas escalas são:

  1. Traço de raiva: mede se uma pessoa tem uma personalidade raivosa e se uma pessoa tende a reagir com raiva quando criticada
  2. Estado de raiva: mede se uma pessoa sente raiva no momento e se sente vontade de expressar sua raiva verbal ou fisicamente
  3. Controle externo da raiva: mede se uma pessoa expressa raiva em relação a outras pessoas, como gritar com um parceiro ou socar uma parede.
  4. Controle interno da raiva: mede se uma pessoa suprime seus sentimentos de raiva.

Os participantes do estudo com EM foram comparados a um grupo controle. Os pesquisadores descobriram que as pessoas com Esclerose Múltipla eram mais propensas a ficar com raiva (traço de raiva), ter uma intensidade mais alta de raiva (estado de raiva) e expressar raiva externa ou internamente, em comparação com o grupo de controle.

Em outras palavras, este estudo sugere que as pessoas com Esclerose Múltipla tendem a sentir raiva com mais frequência do que aquelas que não têm EM. 

Para testar se esse nível mais alto de raiva no grupo de Esclerose Múltipla foi atribuído à depressão e ansiedade subjacentes, os pesquisadores correlacionaram os escores de raiva com os sintomas de depressão e ansiedade. Os pesquisadores não encontraram nenhuma ligação, sugerindo que a raiva existisse sozinha e não era um marcador de uma condição de saúde mental subjacente.

O sentimento de raiva e qualidade de vida

Os participantes deste estudo também foram submetidos a uma avaliação de qualidade de vida relacionada à saúde usando o instrumento Escala de Determinação Funcional de Qualidade de Vida (DEFU).

A pessoa que faz este teste deve escolher uma das cinco pontuações para determinar sua satisfação, variando de “0” que significa “nada” a “4” que significa “muito”. Uma pontuação mais alta indica uma melhor qualidade de vida e uma pontuação mais baixa indica uma pior qualidade de vida.

Após uma análise estatística complexa, o estudo descobriu que as pessoas que internalizaram ou reprimiram sua raiva tiveram uma pior qualidade de vida relacionada à saúde (isso foi mais significativo para as mulheres) (1). 

Por outro lado, o traço de raiva não predisse uma pior qualidade de vida relacionada à saúde. Isso sugere que não é a raiva em si que afeta a satisfação com a vida de uma pessoa, e sim se ela guarda esses sentimentos de raiva para si mesma.

Causas da raiva na EM

Os resultados do estudo sugerem que uma pessoa com EM é mais propensa a sentir raiva do que alguém sem EM. Então por que é esse o caso?

Apesar das evidências científicas limitadas, os especialistas suspeitam que a raiva em uma pessoa com Esclerose Múltipla seja o resultado de lesões cerebrais, assim como visão embaçada ou perda de coordenação ocorrem devido a lesões de EM no cérebro. 

Em outras palavras, o sistema imunológico de uma pessoa ataca a cobertura gordurosa das fibras nervosas (chamada de bainha de mielina) em estruturas do cérebro que controlam a emoção, o comportamento e a personalidade como (2):

  • Amígdala
  • Gânglios basais
  • Lóbulo frontal

Quando a bainha de mielina das fibras nervosas nessas regiões do cérebro é danificada ou destruída, a sinalização nervosa é prejudicada. Isso pode afetar a função da região do cérebro levando a uma mudança na expressão emocional, na personalidade e também no comportamento, entre outros.

É claro que receber o diagnóstico de EM, ou outras formas de notícias estressantes, como a progressão da doença ou medicação cara, podem causar sentimentos de raiva. Mas, novamente, o distúrbio de raiva experimentado por uma pessoa com EM pode ser mais uma função de sua doença do que da situação que a pessoa vive.

Finalmente, embora o estudo acima tenha testado a depressão como fonte de raiva e não tenha encontrado nenhuma ligação, a raiva pode ser uma emoção substituta para tristeza ou ansiedade.

Dito tudo isso, descobrir a causa do sentimento de raiva da pessoa com EM pode ser complicado e, embora a pessoa possa pensar que conhece o culpado, é melhor obter uma opinião objetiva de um profissional de saúde.

Tratando a raiva na EM

  • Ao lidar com a raiva na Esclerose Múltipla, é importante primeiro passar por uma avaliação adequada do médico que está tratando o caso, pois isso afetará o plano de tratamento. 
  • Se um profissional de saúde mental diagnosticar junto depressão ou ansiedade, uma combinação de medicação e terapia pode ser extraordinariamente útil.
  • Se a raiva decorre de um diagnóstico ou anterior de EM, intervenções como um grupo de apoio para EM, aulas de controle da raiva, relaxamento ou terapia e aconselhamento familiar podem ser úteis.

Além das sessões de terapia, às vezes um medicamento chamado estabilizador de humor é prescrito para ajudar a gerenciar mudanças de humor imprevisíveis ou explosões de raiva.

  • Embora uma intervenção baseada em mindfulness (ou atenção plena) não tenha sido estudada como um meio de tratar a raiva na esclerose múltipla, descobriu-se que melhora a qualidade de vida, ansiedade, depressão, fadiga e dor em pessoas com EM (3).
  • Também foi descoberto que melhora a raiva em pessoas com fibromialgia, que é uma condição médica crônica totalmente diferente da EM, mas compartilha alguns sintomas semelhantes, como fadiga e dor (4).

Sendo assim a atenção plena (onde uma pessoa aprende a apreciar e viver o momento) pode ser uma estratégia útil para lidar com a raiva profundamente enraizada.

Se você está se sentindo mal por sentir raiva, e essa emoção afeta negativamente seus relacionamentos e funcionamento diário geral (lembre-se, é perfeitamente normal sentir raiva às vezes), converse com seu médico sobre os próximos passos. Receba a ajuda que você precisa, você merece.

Referências

  1. Labiano-fontcuberta A, Mitchell AJ, Moreno-garcía S, Puertas-martín V, Benito-león J. Impact of anger on the health-related quality of life of multiple sclerosis patients. Mult Scler. 2015;21(5):630-41. doi:10.1177/1352458514549399.
  2. Hung Y, Yarmak P. Neurorehabilitation for Multiple Sclerosis Patients with Emotional Dysfunctions. Front Neurol. 2015;6:272. doi:10.3389/fneur.2015.00272
  3. Simpson R, Booth J, Lawrence M, Byrne S, Mair F, Mercer S. Mindfulness based interventions in multiple sclerosis–a systematic review. BMC Neurol. 2014;14:15. doi:10.1186/1471-2377-14-15
  4. Amutio A, Franco C, Pérez-fuentes Mde C, Gázquez JJ, Mercader I. Mindfulness training for reducing anger, anxiety, and depression in fibromyalgia patients. Front Psychol. 2014;5:1572. doi:10.3389/fpsyg.2014.01572

Leitura adicional

  • Amutio A, Franco C, de Carmen P acute;rez-Fuentes M, Gázquez JJ, Mercader I. Mindfulness training for reducing anger, anxiety, and depression in fibromyalgia patients. Front Psychol. 2014;5:1572.
  • Labiano-Fontcuberta A, Mitchell AJ, Moreno-García S, Puertas-Martín V, Benito-León. Impact of anger on the health-related quality of life of multiple sclerosis patients. Mult Scler. 2015 Apr;21(5):630-41.
  • Nocenti U et al. An exploration of anger phenomenology in multiple sclerosis. Eur J Neurol. 2009 Dec;16(12):1312-7.
  • Opara JA, Jaracz K, Brola W. Quality of life in multiple sclerosis. J Med Life. 2010 Nov 15;3(4):352-58.
  • Simpson R, Booth J, Lawrence M, Byrne S, Mair F, Mercer S. Mindfulness based interventions in mutliple sclerosis—a systematic review. BMC Neurol. 2014 Jan 17;14:15.

Leia mais no site da AME:

 

Tradução e adaptação: Redação AME – Amigos Múltiplos pela Esclerose

Fonte: Very Well Health

Escrito pelo médico Colleen Doherty, revisado pela médica Claudia Chaves,em 3 de julho de 2020

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