Arteterapia e Esclerose Múltipla: a influencia das artes nos sintomas da EM

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Arteterapeutas podem ajudar pessoas com EM com seus sintomas e questões por meio da arte

A arteterapia tem benefícios comprovados para uma série de condições crônicas e transtornos de humor. Pode ser também um elemento poderoso em seu plano de tratamento se você tiver um diagnóstico de Esclerose Múltipla (EM).

O Dr. François Béthoux, Diretor de Serviços de Reabilitação do Cleveland Clinic Mellen Center, nos Estados Unidos, falou por telefone para explicar como pegar um pincel ou caneta e trabalhar em uma atividade com um terapeuta treinado pode beneficiar pessoas com EM.

O que é arteterapia?

Existem várias modalidades que caem sob o guarda-chuva da arteterapia, incluindo a musicoterapia, e o que chamamos de “mostras terapêuticas das artes visuais” – a exibição de arte nas paredes de um hospital – que podem influenciar o humor de uma pessoa.

O que as pessoas costumam associar à arteterapia é uma situação em que terapeutas certificados fornecem uma atividade criativa – pintura, escultura ou algo artesanal – para as pessoas, e há a interação com um terapeuta credenciado para isso.

Quais são os benefícios comprovados para pessoas com EM?

Não há muitas evidências sobre o efeito da arteterapia especificamente na EM. No entanto, fui coautor de uma revisão de estudos que encontraram um efeito esperado das modalidades de arte em questões emocionais e na autoconfiança ao se sentir fortalecido em fazer algo por meio do corpo.

Para muitas pessoas com EM, a percepção do corpo muda. Eles podem ter problemas sensoriais, dor e dificuldade de movimentação. Por meio das artes, podemos envolver as pessoas com emoções positivas, permitindo-lhes fazer mais do que pensavam que poderiam, mas também desfrutando da gratificação imediata de criar algo.

Quais são os mecanismos pelos quais a arteterapia pode ajudar com os sintomas da EM?

Em um modo criativo, costumamos dizer que as pessoas entram em um “fluxo”, onde são cativadas pelo que estão fazendo. Estando muito focadas, elas esperam esquecer do que as estressa e, no final, elas têm resultados palpáveis – a arte.

O trabalho artístico pode ser compartilhado com outras pessoas, gerar uma discussão e talvez permitir que elas liberem algumas emoções, que é onde um terapeuta capacitado entra.

Essa atividade envolve várias áreas. É sensorial, porque há uma atividade tátil envolvida, e também é cognitiva.

É um entendimento cada vez mais comum que a EM afeta o desempenho cognitivo. Mesmo os profissionais de saúde podem não reconhecer isso em pessoas com EM, porque, de acordo com nossos padrões, sua atenção, memória e habilidades cognitivas estão razoavelmente bem preservadas.

No entanto, elas lidam com questões cognitivas diariamente, apesar da fadiga, depressão e outros fatores que afetam o desempenho funcional. Uma atividade criativa envolve cognição, além de um componente emocional. Há um empoderamento para criar novamente algo que é seu.

A EM altera a vida de uma pessoa de muitas maneiras. Costumo comentar que muitos de nossos pacientes têm que parar de trabalhar devido à deficiência, embora muitas vezes sua deficiência não se deva a um único problema, mas sim a efeitos pequenos ou moderados que podem alterar a capacidade de funcionamento de uma pessoa.

O que eu gosto na arteterapia é que você pode tocar em muitos desses componentes. Muitos pacientes dizem que se esquecem da dor enquanto pintam. No passado, achávamos que as pessoas com esclerose múltipla não tinham dor associada à esclerose múltipla e agora entendemos que têm, e muitas vezes é uma dor crônica.

A arteterapia é uma intervenção muito acessível e de baixo custo. É algo que pode ter resultados profundos quando outros recursos de saúde são limitados.

Uma vez que alguém foi apresentado a essa técnica por um terapeuta, eles podem continuar em casa ou à distância. Sessões online também podem ajudar com as limitações que alguém com EM tem para se locomover a diferentes lugares.

Existe algum ciclo de feedback positivo nesse trabalho?

Na EM, classificamos os tratamentos como terapias modificadoras da doença – aquelas que impedem o sistema imunológico de atacar o cérebro e a medula espinhal – ou aquelas que tentam restaurar os nervos e as sinapses, conhecidas como terapias sintomáticas ou de reabilitação, que envolvem a adaptação às limitações ou a tentativa de limitar as consequências dos danos ao sistema nervoso. Para mim, a arteterapia se encaixa na última categoria.

Na arteterapia em pessoas com EM, nunca devemos esquecer que estamos trabalhando com um indivíduo com história e personalidade. As pessoas reagem de maneira diferente às mudanças nas funções neurológicas e do corpo.

A literatura sobre o impacto da arteterapia na autoestima e no empoderamento, e como ela pode afetar a qualidade de vida, me levaria a acreditar que poderíamos iniciar ciclos de feedback positivo. Curiosamente, na interação com os pacientes, isso é um fato.

Quais seriam os mecanismos específicos da arteterapia para pessoas com EM?

Eu sou um especialista em reabilitação. Temos que estar cientes da pessoa, do que é a EM e o que a EM causa, para que possamos estar cientes das limitações das pessoas e sermos capazes de nos adaptar rapidamente.

Devemos estar atentos à mistura de consequências físicas e cognitivas que requerem mais tempo. Também podemos ajustar a meta para que, no final, a pessoa não fique frustrada por não ter obtido o resultado desejado ou sinta que não vai conseguir.

Isso exige muito do terapeuta durante a sessão para adaptar sua abordagem às consequências da EM e para reconhecer que as pessoas podem se cansar logo, tanto física quanto mentalmente.

Pessoas com EM podem sentir exaustão ao tentar se concentrar e seus músculos também podem se cansar. Isso requer que o terapeuta perceba os sinais e responda com algo como: “Notei que seu braço está ficando cansado, por que não paramos um pouco ou trabalhamos em outra coisa.”

Não é tanto que a atividade em si deva ser padronizada, mas mais sobre como ajustar a atividade no momento para lidar com as limitações.

A arteterapia é uma intervenção de curto prazo ou é recomendada como parte permanente do plano de cuidados de alguém?

Temos intervenções que tendem a ser de curto prazo ou episódicas. Geralmente, não podemos ter acesso a um arteterapeuta todas as semanas, então a esperança é que isso inspire a pessoa a continuar a atividade em casa e entrar em contato com um terapeuta de forma intermitente. A atividade contínua também é impulsionada pelo interesse da pessoa.

Fizemos pesquisas sobre um “menu degustação” com ofertas de diferentes atividades para pessoas com diferentes condições, inclusive EM. Uma dessas atividades foi a arteterapia. Recebemos um feedback positivo das pessoas, como “Eu estava fazendo arte por conta própria e você me deu um novo incentivo para retomar” ou “Nunca pensei em fazer isso e agora faço regularmente”.

Como a EM é uma condição que tende a ser progressiva, um plano de longo prazo pode ser elaborado com o consentimento e envolvimento de uma pessoa.

Como as pessoas interessadas em arteterapia podem encontrar especialistas?

Organizações profissionais podem ajudá-lo a encontrar um terapeuta em sua área. Também é bom verificar os sistemas hospitalares. As organizações de saúde também costumam fazer parceria com centros comunitários.

 

Fonte: Healthline

Tradução e adaptação: Redação AME – Amigos Múltiplos pela Esclerose

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