O acesso e o excesso

O acesso à informação mudou muito de quando eu era criança até hoje. Mas a crescente facilidade de acesso nos inunda com um excesso. E não estamos sabendo filtrar.

Quando eu era criança, todas as notícias chegavam a minha casa por três fontes: pelo rádio, sintonizado majoritariamente na rádio Guaíba, preferida do meu pai, pela TV onde o Jornal Nacional reinava absoluto e pelo Correio do Povo, jornal impresso que papai comprava aos domingos. Tudo o que sabíamos do mundo vinha dessas três fontes. Eram tidas como confiáveis e respeitadas. Mas sempre tive minhas dúvidas quanto à imparcialidade (Sim, nasci questionando o senso comum).

Já na adolescência, eu preferia o jornal Zero Hora, enquanto papai continuava fiel ao Correio do Povo. O rádio já tocava outros acordes e as notícias dadas pelas emissoras eram mais variadas. Na TV, o JN continuava absoluto, mais pela qualidade do que pela confiabilidade.

A partir da entrada da internet em nossas vidas (o uso mais popular se deu por volta do ano 2000 com o surgimento dos primeiros provedores gratuitos e deslanchou a partir de 2004 com o surgimento de redes sociais como o Orkut e o Facebook), todo tipo de informação começou a chegar de forma rápida e sem filtros. Agora não recebemos mais somente as notícias da guerra lá do outro lado do mundo, mas a fofoca da vizinhança se espalha pelo mundo na mesma velocidade. Temos toda a informação literalmente na palma das mãos, já que nossos smartphones nos dão acesso a tudo aquilo que for possível colocar em um app.

Se por um lado temos mais fontes, com visões diferentes de um mesmo assunto, por outro temos muito menos senso crítico.

Antigamente, as notícias chegavam censuradas, transmitidas por fontes pouco imparciais ou no mínimo engessadas pela dificuldade de emitirem suas próprias opiniões. Então, cabia a nós analisarmos o que estávamos lendo, ouvindo ou vendo. Perceber as falhas na narrativa e questionar. Talvez nunca tivéssemos acesso a toda a verdade dos fatos, mas ao menos sabíamos que estávamos sendo enganados.

Hoje, recebemos a história contada de tantas formas diferentes, vinda de tantas fontes diferentes, conhecidas, respeitadas ou obscuras e mal intencionadas, que engolimos tudo sem nos darmos ao trabalho de questionar.

Porque hoje, as chamadas “Fake News” (notícias falsas) se alastram de forma muito mais veloz e eficaz que notícias verdadeiras? Porque não questionamos mais. Recebemos no grupo de whatsapp da família aquela notícia falando de um assunto polêmico, geralmente com um título bem chamativo, uma história bombástica, declarada como importante e que não será veiculada nos meios de comunicação tradicionais e já tomamos aquilo como sendo verdade e saímos espalhando para toda nossa rede de contatos, achando que estamos fazendo um grande bem para a humanidade.

Por sua vez, cada um da nossa rede, recebe e faz o mesmo, passando adiante essa desinformação que só confunde e cria sombras de medo e ignorância sobre a informação verdadeira.

Não temos como frear essa avalanche de dados que recebemos. Esse avanço da tecnologia e essa facilidade com que temos acesso a todo tipo de informação não tem como ser revertido e nem é de todo ruim. Mas nós precisamos urgentemente recuperar nosso senso crítico e começar a questionar aquilo que recebemos. Não leva mais de dois minutos conferir se aquela notícia que recebemos é verdadeira. Não tenha medo de duvidar daquele seu primo que sempre foi o mais inteligente da família ou do seu amigo mais confiável. Todo mundo, por mais inteligente que seja, já caiu na conversa de alguma Fake News, já passou adiante achando que era verdade e até bateu boca com alguém defendo a ideia de que aquilo era certo.

Todo o preconceito e agressão gratuita que existem no mundo, só existem por falta de informação. Como hoje temos muita informação disponível, nos julgamos bem informados a respeito de tudo. E na verdade não estamos bem informados sobre nada. É preciso urgentemente começar a perder um tempinho e filtrar melhor o que vamos passar adiante.

Na dúvida, por mais importante que a notícia pareça, não passe adiante.