EM e Relacionamento (Parte II) – Bruna e Jota

Peço licença para falar da gente.

Há muitos casais que renegam essa indiferenciação dos pares como se fossem um bloco homogêneo em nome da defesa de uma suposta individualidade. Particularmente gostamos disso. Depois de mais de 3 anos e meio juntos, de tantos eventos, matérias em jornais, textos escritos e declarações mútuas, de termos um filho, das batalhas que lutamos juntos (pela causa da esclerose, da pessoa com deficiência, da acessibilidade), dos amigos compartilhados, do casamento, do EM e o bebê, acabamos se perdendo um no outro. Já não é tão claro onde termina um e onde começa o outro. Apesar dos estilos diferentes, nossos textos e discursos estão impregnados de coisas que foram pensadas em conversas cotidianas.

Por tudo isso, há uma imagem que se colou a essa forma ”Bruna e Jota”. É realmente gratificante quando dizem que nossa história é linda (também achamos), que algo que fizemos foi útil, que algo que escrevemos ajudou, ou que nos admiram enquanto casal. No entanto, essa percepção é só o momento atual, até aí muita coisa aconteceu… Sei que eu no começo era apenas o “cara que namorava a Bruna”, que evoluiu pro “agora entendi porque a Bruna o escolheu”, para chegar finalmente no “Bruna e Jota”, como bloco homogêneo.

Lógico que ficava todo bobo e cheio de si por fazer parte das duas outras etapas do processo (antes de ser namorado eu fui fã da Bruna e adorava ler o que ela escrevia e aprender sobre EM). Mas “Bruna e Jota” é o final desse caminho, não o início que procurava forçar a realidade. Apesar disso, tínhamos uma certeza meio estranha, espiritual até, que aquilo era o certo e que deveríamos continuar mesmo com os problemas (e lhes digo, namorar alguém no início da transição do diagnóstico, do “não preciso de ajuda ao por favor me ajude” não é fácil: #BrunaPaciente}.

Sabendo do resultado, as pessoas só veem semelhanças: “Olha que bonitinhos! Os dois se uniram porque têm EM”. Brincamos que a Esclerose foi o que nos apresentou (de fato, se não tivesse o diagnóstico, talvez nunca teria chegado ao blog dela), mas definitivamente não foi o que nos uniu. Temos muitas coisas em comum, temos “kits” parecidos. No entanto, as semelhanças não garantem o sucesso de um relacionamento e do que construímos até aqui. Homogêneo não quer dizer coerente, já dado, o mesmo hoje e sempre, sem história. Certamente, o que nos trouxe até onde estamos foi nossa capacidade de se movimentar, de lidar com o diferente e mudar se for preciso.

Vendo o que parece homogêneo como imutável, ignora-se: 1) os sujeitos/partes/forças dessa relação, e 2) os tempos do objeto (passado/presente/futuro) – as coisas são percebidas sempre em um presente rígido e sem historia (É). Nesses anos de relacionamento com a Bruna, ambos mudaram. Percebo na Bruna o esforço de mudar certas coisas e de me convencer que as minhas mudanças físicas (pra pior, infelizmente) são indiferentes. Sinto que ela estará do meu lado independente do que aconteça. Acho que é isso que chamam de amor, hehe.

Nesses anos, certamente eu também mudei e sinto que mudei pra melhor. Felizmente não sou o mesmo, mudei porque as condições exigiam, mudei quando machucava àquela que cuidava de mim e me amava. E não foi só uma mudança por instinto, mas calmamente refletida. Percebi que a Síndrome de Gabriela (eu nasci assim, eu cresci assim…) não faria bem nem a mim individualmente, nem enquanto esclerosado, nem para o nosso relacionamento.

Hoje, me sinto uma pessoa muito melhor. E tenho muito que agradecer a ela. Eu sempre fui um cara muito inseguro e carente em meus relacionamentos passados. Às vezes me sentia atrapalhando a pessoa e vivia achando que estavam me fazendo um favor. Talvez, o momento atual não seja dos melhores fisicamente, mas quando alguém diz coisas como (que outras pessoas com deficiência dizem ter escutado também): “ah, você têm muita sorte da Bruna aceitar a ficar com alguém doente e em cadeira de rodas”. Eu brinco, certamente tenho muita sorte mesmo de tê-la ao meu lado, mas eu também sou um cara bem interessante.

Acho que me tornei alguém bem interessante. Pelo menos gosto do que sou. E nisso tenho que agradecer a ela por ter acreditado em mim enquanto não era esse cara que sou hoje. Tornei-me alguém seguro, que não tem a menor vergonha de expor suas  dificuldades privadas. Sinto-me transparente e isso é maravilhoso. Por gostar desse cara e ver nele qualidades, não vivemos um relacionamento de forma hierárquica e carente.

Finalmente, sou seguro, me sinto seguro, capaz de parar, analisar a coisa e dizer: você está errada, não penso assim. Temos uma brincadeira entre nós. Quando o outro começa a se explicar demais sobre algo, sorrimos e dizemos: “você não precisa de nota de rodapé”. Há em nós uma adequação necessária entre forma e conteúdo (coisa que pretendo falar melhor no próximo post) que faz com que certos acontecimentos, que possivelmente poderiam causar algum desentendimento, sejam subtraídos em nome do que existe e o que queremos preservar; sendo mais claro o nosso amor e relacionamento.

Homogêneo não é igual. Homogêneo não é coerente. No nosso caso, ele quer dizer movimento. É nessa dialética entre tese e antítese, que construímos nossa síntese. Gostamos de seu resultado. Nossa força, acredito, apesar de todas as semelhanças, está justamente em nossa capacidade de administrar elementos às vezes opostos. Somos conscientes de que “Bruna e Jota” é uma construção cotidiana. Não “é” simplesmente, depende do nosso esforço diário e constante. A forma precisa do conteúdo para se movimentar; e o conteúdo precisa da forma para saber que nesse movimento se manterá estável.