A gente nunca espera: a roda gigante da vida não para nunca

Por Bárbara

 

É bem verdade que a gente vive uma vida cheia de esperas. Esperas boas, ansiedades gostosas, aquele friozinho na barriga, borboletas no estômago. Outras esperas não são assim tão gostosas. As filas de um supermercado numa sexta à noite, a espera por um novo episódio daquela série que tanto gostamos, o salário que não sai nunca… a gente espera por tanta coisa, mas nunca espera por um diagnóstico.

Temos tanto a esperar, sentir, viver, conviver, que esquecemos de nos preparar para as partes não tão boas assim de se estar vivo. Afinal de contas, a parte ruim também faz parte.

 

Eu gosto de comparar a vida a uma linda roda gigante, brilhante, reluzente, enorme. Ela não para pra você quando você quer ou deseja algo. Ela simplesmente roda, segue seu caminho, assim como foi programada.

A gente nunca espera sentir algo desagradável, procurar um médico e ouvir dele algo que estremece as pernas, dá dor de cabena instântanea, te tira do seu centro e te coloca na posição mais vulnerável do mundo.

Quem já passou por isso pode descrever a sensação de estar sentado num consultório e todo o resto do mundo ter parado ao seu redor. As palavras ficam em câmera lenta, seu cérebro manda informações pro corpo mas esse não responde. Fica tudo meio escuro, meio curto, meio sem razão de existir. A verdade é que a gente nunca está preparado pra esse momento, a gente nunca espera por isso.

 

Quando se recebe um diagnóstico, a maioria das pessoas ao redor logo pensa: “a vida precisa continuar”. A minha roda gigante estacionou naquele momento, parou. Ela quebrou. Justamente porque a gente nunca espera, nunca se prepara por algo assim.

A sua voz interior some. As borboletas no estômago se escodem totalmente. A cabeça fica vazia. As pernas bambeiam. O ar falta. A roda para de girar.

Quando eu tinha 4 anos, me perdi dos meus pais num shopping. Não me lembro de muita coisa. Mas me lembro de ficar encantada com as cores de uma loja de roupas de criança que ficava pertinho de uma praça cheia de brinquedos. E lá tinha uma roda gigante. Linda. Enorme. Que não parava nunca, só para novos passageiros embarcarem mas rapidamente retornava ao seu turno, sem descanço.

Não me lembro como aquele dia terminou. Tudo que me lembro é deles dizendo que tudo iria ficar bem quando finalmente me encontraram. Mas a roda gigante nunca saiu da minha cabeça… principalmente aquele fluxo sem fim, sem paradas.Lembro de ir embora olhando a meio olho todo aquele brilho. Ela continuava lá, linda e rodando.

É engraçado como a nossa memória funciona. Tem coisas que nunca conseguimos lembrar. E tem coisas que nunca conseguimos esquecer.

O dia do diagnóstico entrou pra segunda lista, porque, definitivamente, a gente nunca está preparado, a gente nunca espera.

 

Mas a roda gigante, ela continua lá. A roda gigante não pode parar.