Maneiras e maneiras de se dizer a mesma coisa

Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Renato Russo)

Dando continuidade ao tema "o que não se deve falar para alguém com Esclerose Múltipla", vou discorrer sobre um dos meus sintomas que, embora agora esteja menos acentuado, já me foi motivo de grande sofrimento emocional, principalmente pelos comentários que sempre feitos quando ele se manifestou. 

Embora o meu diagnóstico de esclerosada tenha sido feito há pouco mais de 3,5 anos, buscando na memória,  acredito que a minha companheira múltipla me acompanha desde a adolescência. Ela me perseguiu durante anos como uma sombra que se esgueirava pelos becos da minha vida, se fazendo sentida sem no entanto mostrar sua face ou ao menos dizer o seu nome. Por anos, senti os efeitos de carregá-la comigo por onde quer que eu fosse. Suportei o seu peso, suas manias, seus desmandos e, muitas vezes, acreditei que minha mente inventava coisas a fim de justificar minha falta de energia, minhas dores constantes, minhas vertigens extenuantes, me sentindo culpada por não ser como as demais pessoas que viviam ao meu redor.

De tudo, o que mais me maltratou durante todo esse tempo que senti os sintomas da Esclerose Múltipla sem saber quem ela era, foi perceber que eu não tinha mais a mesma habilidade com as palavras, a mesma articulação ao falar, nem a mesma memória de antes. Mas, essa percepção não veio rápida, nem da forma menos traumática possível, muito pelo contrário, ela veio carregada de reprovações, de comentários dolorosos e de uma perda constante de confiança em mim mesma.

Não foi nada fácil ouvir, de algumas pessoas, o quanto elas odiavam a minha estranha mania de deixar as frases pela metade, de parar de falar sem ter completado o raciocínio como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Foi difícil ao extremo receber como resposta, a uma pergunta minha, que já tinham me respondido aquilo mais de mil vezes, sem que eu me lembrasse que já havia feito aquela mesma pergunta anteriormente.

Foi terrivelmente angustiante perceber que ao escrever ou falar, palavras corriqueiras, que sempre fizeram parte do meu vocabulário, fugiam de mim, se escondendo em um canto da minha mente, me deixando com a frustrante sensação de que eu estava desaprendendo a falar.

Hoje, sei que tudo isso são sintomas da Esclerose Múltipla que, embora nunca me deixará senil, brinca com a minha mente e oculta de mim alguns aspectos da minha capacidade de articulação e lembranças. Hoje, eu tenho consciência de que não depende do meu querer deixar uma frase pela metade ou não me lembrar de que já contei um fato ou fiz a mesma pergunta diversas vezes. Hoje, eu sei que não sou a única a passar por isso, mas que inúmeros esclerosados, assim como eu, também vivenciam essa mesma sensação de perda de controle da própria capacidade de interação e de expressão.

Por tudo isso, quero fazer apenas um apelo àqueles que não sentem na própria pele todos os sintomas que a enfermidade neurológica traz em sua bagagem: por favor,em nome de todos os portadores de Esclerose Múltipla que apresentam os mesmo sintomas que eu, jamais demonstrem irritação por terem de responder a mesma pergunta ou por terem de ouvir a mesma história diversas vezes. Sei que não é fácil, sei que é irritante e pertubador tudo isso, no entanto, acreditem, para nós, é ainda mais difícil e desolador.

Com isso, não estou querendo dizer que vocês terão de ouvir a mesma história ou responder a mesma pergunta indefinidamente, ou mesmo, ficarem sem saber o final do que começamos a dizer e não concluímos. Na verdade, o que estou tentando mostrar é que existem maneiras menos constrangedoras de sermos alertados quanto a isso, pois, ao invés de dizerem a famosa frase: já te respondi isso mil vezes, por favor, digam apenas, educadamente: você já me fez essa pergunta, mas se não se lembra vou te responder novamente; ou, o que você estava dizendo mesmo? 

Pronto, não é tão difícil assim tornar um pouco menos incômodo a nossa convivência com sintomas cognitivos que, ao menos para mim, sempre foram os mais difíceis de lidar, vocês não acham?

Beijos no coração de todos!