Palavras são atos

Oi queridos, tudo bem com vocês?

Bem, nos últimos posts temos falado sobre coisas que não gostamos de ouvir sobre viver com a EM, ou sobre atitudes do outro que muitas vezes nos chateiam. Mas, não nos esqueçamos que nós também somos o outro em diversas situações e por isso devemos ter paciência e a delicadeza de explicar pras pessoas porque certas atitudes devem ser evitadas. Claro, tem coisas que o velho e bom “bom senso” resolvem. Mas, lembrem-se, bom senso é item raro…hehehehe

Hoje eu quero falar de 4 palavrinhas/expressões que me incomodam particularmente e que eu sempre sempre sempre “corrijo” quem usa. São elas: Portador, superação, deficiente, coitado/coitadinho e suas variações.

Antes que me chamem de chata de galochas e que digam que isso é chatice de politicamente correto, quero dizer que as palavras não são inocentes. Elas carregam sentidos. Elas carregam uma história. E a escolha de uma ou outra palavra traz junto as nossas escolhas sobre como ver e viver o mundo.

E essas quatro palavras dizem muito sobre como vemos o mundo, o outro e a nós mesmos.

A primeira delas e que me dá arrepios é a palavra PORTADOR. Vejo muitas pessoas falarem portador de esclerose múltipla, portador de deficiência, portador da doença x, y ou z. Mas nunca ouvi ninguém dizer portador de olhos azuis, portador de cabelos negros, portador de pele branca. Parece estranho não é? E só parece estranho porque nós temos cabelos, olhos e pele, não portamos essas nossas partes, correto? Da mesma forma, nós não portamos uma deficiência, nós a temos. Simplesmente porque não podemos deixar de portá-la a hora que quisermos. Não podemos deixar nossa esclerose múltipla em casa quando bem entendemos. Quando me chamam de portadora, eu fico pensando em portador de armas. Me sinto carregando alguma coisa.

Gente, nós podemos portar uma arma, uma bolsa, uma sacola, mas não uma doença. Sim, legalmente/juridicamente o termo portador ainda é utilizado. Mas existe toda uma luta política dos movimentos de pessoas com deficiência para que o termo portador deixe de ser utilizado (e já vou explicar isso). E, na minha opinião, a lógica para o uso da palavra é o mesmo quando falamos de uma doença.

Então, vamos combinar: a gente porta uma bolsa, mas tem uma doença.

Seguindo nessa questão da luta pela mudança de portador para pessoa com deficiência, é bom lembrar que as palavras carregam consigo essas lutas políticas por direitos, reconhecimento social e respeito como ser humano. E é por isso que a outra palavra que me dói aos ouvidos é DEFICIENTE. Essa é porque, quando você fala que alguém é deficiente, você escolhe como principal identificador daquela pessoa a sua deficiência. E quem é que quer ser conhecido antes pela sua deficiência e depois por quem é? Então, é por isso que o termo correto e respeitoso é PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Quando a gente fala assim, corretamente, reconhecemos primeiramente a pessoa, depois vem a sua deficiência, que é algo que essa pessoa tem, não algo que a define. Antes de ela ter uma deficiência que a identifique como deficiente, ela é homem, mulher, esposa, marido, mãe, pai, filha,filho, estudante, trabalhador, viajante. Nós temos muitos mais que uma identidade só. E é por isso também que portador não é correto. Não só pelo fato da pessoa não poder deixar a deficiência em casa, mas também porque não queremos colocar a deficiência como uma carga que ela carrega. É algo que ela tem.

E é por isso que eu escolhi, como uma posição política e social, abolir o termo PORTADOR da minha fala/textos sobre deficiências e doenças. Por achar mais coerente e por respeitar quem tá na luta há muito mais tempo que eu (pra conhecer essa luta, veja esse post que fiz há alguns meses aqui na AME).

Agora, vamos ao terceiro termo que eu acho muito complicado de ser usado porque não vejo ninguém utilizá-lo de forma que respeite o próximo. E é a palavra SUPERAÇÃO. Me dói na alma ser chamada de exemplo de superação. Porque eu não acho que nenhuma ação minha tenha sido super. E porque eu acho que só se supera aquilo que não se espera. E a sociedade, que costuma não esperar nada de bom ou útil de quem tem uma deficiência e/ou uma doença, acha que quando alguém que tem uma diferença funcional dessas faz algo está se superando.

Esse é o primeiro motivo pra eu não gostar desse termo. Ele lembra que não se espera nada de “alguém como eu”. Pior ainda é quando falam: bacana você estudar, porque se você quisesse ter parado, ninguém ia te condenar e dizer que você tinha que continuar. Ou seja, não esperam o mínimo mesmo.

Aí você pode dizer: mas Bruna, superação não se aplica a nada? Não, acho que se aplica sim a algumas situações. Diariamente eu posso dizer que supero meus limites, individualmente.  O problema não é a palavra superação, mas como e quanto usam ela para exemplos de meritocracia que acabam humilhando pessoas que não conseguem ter o mesmo sucesso dizendo: viu só, a pessoa X conseguiu porque se superou, teve força de vontade. Você não consegue e é um fracasso.

É verdade que precisamos de força de vontade pra ter algum êxito na vida, mas além disso, precisamos de condições estruturais físicas, financeiras, psicológicas. Precisamos do nosso entorno, de apoio das pessoas que convivem conosco, do sistema de saúde etc.

Me incomoda quando alguém diz que eu sou exemplo de superação porque eu sei de todos os privilégios que eu tenho e que a maioria das pessoas com a mesma doença que eu não têm. Eu não consegui nada disso sozinha. Até mesmo o acesso a um bom tratamento e aos medicamentos certos fazem com que eu tenha mais condições que outras pessoas (como o Jota muito bem exemplificou nesse post). Cobrar que as pessoas sejam exemplos de superação é algo muito pesado e que ninguém precisa.

E a última palavra que me tira do sério quando falam é coitado e suas variações no diminutivo: coitadinho, tadinho. Eu tenho horror disso. Não sei se é porque cresci ouvindo minha vó falar tadinho pra todos. Ou se é porque sempre que eu ouço tadinho está associado a alguém que de tadinho não tem nada, mas que, socialmente as pessoas acreditam que tenha uma vida de merda: pessoas com deficiências, pessoas com doenças crônicas ou pessoas diferentes de um modo geral. Já ouvi tadinho quando um amigo disse que era gay. Já ouvi tadinho quando alguém falou que não sei quem tinha síndrome de down. Já ouvi tadinha ao falar que minha irmã tem esquizofrenia. Já ouvi tadinho porque a pessoa X era idosa. Gente, porque viver numa condição de vida diferente da sua faz do outro um coitado? Sempre acabo respondendo: Sinceramente, coitado é de você, que não consegue reconhecer e respeitar uma vida que não seja a sua.

No fim das contas, acho que as quatro expressões que escolhi falar hoje tem muito a ver com respeito. Escolher as palavras certas tem a ver com respeito. Porque, como eu disse no início, as palavras não são inocentes. E assim como palavras sensíveis e carinhosas funcionam como um carinho, palavras mau escolhidas podem ser um tapa na cara.

Pense nisso da próxima vez que falar alguma dessas 4 palavras. Pense no Outro. Porque a palavra usada para se referir ao outro costuma ser a mesma utilizada para falar de nós mesmos.

Até mais!

Bjs