EM e eu (parte III-ii) – Tempo, ansiedade e antecipação

Há algumas semanas uma ideia me acompanha muito fortemente: a ansiedade é um pouco como uma falta de fé. Falo em falta de fé não no sentido religioso, mas laico mesmo, de confiança, na certeza de que algo vai dar certo, independente do resultado. Essa afirmação, no entanto, podia ser mal compreendida. Afinal, podia dar a entender que penso que a pessoa ansiosa é alguém de pouca fé ou que creio que os males sociais são motivados apenas pela descrença dos envolvidos; como se acreditar firmemente bastasse para solucionar um problema. Não é isso.

Os problemas pessoais e sociais continuarão a existir mesmo que não pensemos neles. Mas será que precisamos sofrer para além deles? Digo, para além da duração que realmente têm? Por exemplo, uma coisa laranja pode ter essa cor e ponto; ser apenas uma constatação. Ou vir acompanhada de sofrimentos e lamentações duradouros pelo fato de você só ter um lápis amarelo e não conseguir reproduzir o objeto com perfeição; ou, ainda parar, respirar e tentar pensar outras soluções, como misturar com vermelho.

Amparada em respostas fáceis e fórmulas prontas, a humanidade caminha em sua pressa, ansiosa para ser outra coisa, buscando incansavelmente suprir uma falta e correndo atrás de um ideal. A partir disso se constroem estratégias para antecipar aquilo que é considerado “o certo” e “o melhor”, separando ou deixando pra trás “o errado” e ”o anormal”.

Dessa forma, é necessário se desvencilhar desse tempo que parecemos desorganizar e adotar um tempo próprio, que fortaleça a nossa autonomia. Todavia, essa adoção de um tempo particular, em que se é a principal referência, gera consequentemente uma ansiedade naquele que observa de fora. Uma ação parece incomodar o espectador, ávido por sua conclusão, e que vendo nossa dificuldade para realizar um simples movimento ou atividade, intervém sem permissão ou solicitação.

Pode ser mais fácil, rápido e cômodo esperar esse auxílio externo, mas é nossa função conter essa ansiedade e expectativa do outro, afirmando um tempo próprio, mesmo que cheio de dificuldades. Não há um jeito certo de fazer algo, apenas o nosso jeito, a partir das estratégias que encontramos e do tempo que dispomos. Como uma criança, tudo é novidade, tudo é desafio. Vejo isso no Francisco. Às vezes, queremos que ele faça algo como nós fazemos e esquecemos que nós mesmos só sabemos resolver aquele problema porque passamos pelas mesmas dificuldades. Por melhor que sejam nossas intenções, nem sempre ajudamos fazendo as coisas por ele. É um aprendizado observá-lo.

Aí entra a fé, acredito; laica, inapreensível, fugidia. Algo que não está amparado em certezas ou conclusões (dogmas), mas que, ao contrário, lhe apresenta dúvidas e instabilidades, revelando-se como força para suportar e encarar os obstáculos do caminho. A solução de um problema não é um premio recebido por percorrer o trajeto, mantendo-se firme em suas crenças, ou uma culpa que uma pessoa possui e tem que carregar por não acreditar o suficiente. Não visa somente superar o estado considerado imperfeito, mas ensinar como aceitar e conviver com ele. Embora um surto possa ser superado, a EM é uma condição que lhe acompanhará pra vida.

Conversando com a Bruna (minha mestre Jedi e esposa) sobre a questão da ansiedade, percebi que ela já tinha me indicado o caminho no início desse ano, quando aos desejos de um bom 2018 ela me fez a pergunta: “você já pensou que sua vida até aqui deu certo”? Ás vezes esperamos um sinal que nos conduza na escuridão para um lugar seguro, que esquecemos de observar o caminho e não valorizamos o quanto ele foi importante para que você mesmo pudesse ser a luz que procurava e que iluminou a estrada até ali. Transformando cada instante da vida, com suas dificuldades e alegria, em um “estagio existencial”, não apenas uma etapa que deve ser superada, obteremos fortes momento de ensinamento e aprendizado. Com essa afirmação do presente, do orgulho de ser quem se é, nos afastamos de ansiedades e antecipações, que nos impulsionam a continuar buscando por formas e identidades prontas, respostas fáceis e noções estáveis, amparadas em critérios externos.