EM e eu (parte III) – Tempo, urgência e presença

Falar sobre “tempo” nem era uma questão no horizonte. Geralmente quando falo algo é em uma perspectiva mais social: o impacto que a EM têm em nosso corpo, rotina e percepção temporal, em um mundo controlado pelo relógio e com prazos cada vez mais apertados; uma neura de historiador. No entanto, dentro dos objetivos delimitados anteriormente, senti a necessidade de abordar o tema a partir de uma perspectiva mais individual e subjetiva.

O diagnóstico é para todos nós uma ruptura inquestionável. Um ponto de mudança na vida que modifica e distancia aquilo que acreditávamos ser e aquilo que esperávamos atingir no futuro. A partir de então somos obrigados a viver diferente e a fazer outras escolhas, sendo e desejando ser uma pessoa diferente. E essa mudança, inclusive, pode ser para melhor, caso não fiquemos presos à identidade que perdemos.

De certa forma, uma das coisas mais importantes que a esclerose me trouxe foi a oportunidade de experimentar um tempo meu, único e independente do mundo exterior. Livre das prisões do relógio e das amarras dos compromissos sociais é possível assumir um tempo mais natural, em harmonia com a vida humana. Para isso, é necessário eleger prioridades, escolhendo umas coisas a outras, e redefinir nossas concepções de trabalho. Somos convidados a ouvir os limites de nosso corpo para não assumirmos mais tarefas do que podemos suportar.

Nesse sentido, é necessário tomar o tempo para si. Por exemplo, eu sempre fui um cara meio atrasado nos compromissos, mas hoje, ao contrário, estou quase sempre adiantado. Conheço meu corpo, minhas dificuldades, sei que posso demorar mais em um trajeto, ter que parar pra descansar, precisar ir ao banheiro etc. A ideia de chegar a um compromisso correndo, suado e sem fôlego me causa horror; então me programo para ter sempre uma folga. Não corro atrás de relógio, o tempo é meu. Se for chegar atrasado a algum lugar, paciência, assumo a responsabilidade: fui eu quem não planejou direito.

No fundo é uma disputa sobre o tempo: o nosso x o tempo do mundo. Afinal, quem detém o poder sobre o tempo detém o poder sobre a vida. Nesse sentido, como não somos senhores de nosso tempo, acabamos nos submetendo ao senhorio do relógio, de um tempo indiferente às nossas necessidades. Já fui assim e percebo o mesmo comportamento em muitas pessoas, com esclerose ou não, com efetivos transtornos para saúde e para uma vida com mais qualidade.

Antes, vivia correndo atrás de uma identidade já acabada, o que reforçava minha sensação de que sempre faltava alguma coisa. Havia uma certa urgência de ser aquilo que esperava ser, algo imediato. Era como alguém que começa um regime preso ao peso ideal, desejando já ter as medidas pretendidas. Nessa situação, o regime era visto como um sofrimento, uma privação que me separava daquilo que gostaria de ser; o presente, o corpo atual era apenas a constatação de que ainda “não era aquilo”. Estava mais preocupado com a chegada do que com as paisagens que podia admirar durante o percurso. Como se na EM estivesse preocupado apenas com a cura e não com o tratamento, com a doença e não com o doente. Estava preso a uma expectativa que nunca se concluía de forma definitiva, em direção ao que considerava ser o objetivo verdadeiro e desejado.

Mesmo após o diagnóstico, segui esse ritmo. Só comecei a mudar de fato depois do nascimento do Francisco e com a minha piora. Essas duas situações me levaram a repensar o meu papel como marido, como filho, como paciente, como pesquisador etc., minha relação com o mundo. Assim, me libertei da expectativa, de um tempo que se organizava enquanto promessa e antecipação de algo, e pude me ligar mais ao tempo da experiência, mais natural e sem durações definidas. O tempo da experiência é o tempo do dure o que durar.

A partir dessa perspectiva o tempo ganha qualidade e cada momento, cada instante, é percebido em sua peculiaridade. A busca de uma identidade já pronta, acabada, ficou de lado, e me vi em diálogo com o presente, que só me exigia uma coisa: a presença. Ou seja, a certeza de permanecer em harmonia entre ser e estar, vivendo cada acontecimento com intensidade, como eterno e efêmero, singular e universal, único e infinito.