EM e Amizade (Parte I) – Um encontro diferente

Nesse texto, gostaria de relatar uma experiência pessoal. Não tanto por ela ser o padrão, mas justamente seu contrário; um ponto fora da curva. Não estava preparado para aquilo. Para além da certeza de que, mesmo com a distância, tenho amigos fantásticos, vi ali um modelo a seguir e recomendar. Infelizmente, aquela pessoa com Esclerose Múltipla não pode esperar que todos os seus amigos ajam da mesma forma, mas você, amigo ou amiga de alguém diagnosticado, pode ajudar a fazer dessa relação algo melhor. Talvez, seja você o destinatário desse post.

Em 2015, tive a oportunidade de encontrar antigos amigos da graduação em um congresso de História, em Florianópolis. Era a primeira vez que encontrava pessoas da faculdade depois de me mudar para Porto Alegre e de precisar utilizar cadeira de rodas. Estava meio apreensivo. Não tanto pelas explicações que teria que dar ou porque essa seria uma constatação inegável da minha piora. Não duvidava das capacidades minhas e dos meus amigos em lidar com aquela situação. Todavia, sabia que aquele era um encontro que não poderia estar amparado em memórias anteriores.

Não adiantava buscar no passado, aquilo que já fui, para ter alguma referência e prever como agir. Inegavelmente, aquele contato marcava uma ruptura: o Jota que conheciam com o aquele novo Jota. Estava diferente, fisicamente, não era o mesmo indivíduo que conheceram. Muitos sabiam que havia sido diagnosticado com Esclerose, mas seria a primeira vez que me encontrariam com as limitações trazidas por ela.

A semana passou, os contatos se seguiram, e nada: nenhuma pergunta sobre o meu estado, nenhum olhar de pesar, nenhuma postura de dó; nada. Era como se aquilo simplesmente não fizesse diferença. A cadeira era um adereço como se estivesse usando um brinco novo, feito uma nova tatuagem ou tivesse mudado o modelo de óculos. Aquilo era indiferente. Foi como alguém que assume outra orientação sexual e não deixa de ser aquela pessoa legal de antes simplesmente por causa dessa revelação. A deficiência era uma nova identidade, a cadeira seu marcador, mas ambos eram indiferentes.

Naquela semana, uma única pessoa perguntou sobre o que tinha acontecido comigo. A questão veio de uma antiga professora, que via uma diferença entre aquele aluno que frequentava a sua aula e aquela pessoa que estava ali na sua frente em uma cadeira de rodas. A curiosidade não é ruim. É até natural. Poderia até ser grosseiro perceber essa diferença e não perguntar o que houve. A preocupação era legítima e estava pronto para falar e explicar sobre o assunto. Fui preparado para isso, mas todo treino me foi útil somente uma vez.

Quando penso na relação entre EM e amizade, penso nessa semana, nesses encontros. Na verdade, meus amigos me ensinaram, na prática, que a diferença pode ser indiferente. Continuava sendo o mesmo cara de antes, a quem queriam por perto independente dos óculos, piercing ou cadeira que estiver usando. Vira e mexe recebo e-mail ou mensagens no Face de amigos sobre um tratamento, uma pesquisa, um medicamento etc. Às vezes, eu até já conheço aquela informação, mas me sinto muito contente em saber que a pessoa pensou em mim e se preocupou comigo, mesmo longe.

Sou muito grato por isso. O movimento de pessoas com deficiência presa tanto pelo termo “pessoa” antes de qualquer característica, porque no fim é isso: é a pessoa que interessa. Poderíamos falar “pessoa com olhos azuis”, “pessoa com intolerância a lactose”, “pessoa com óculos”. O que vem depois é só um elemento qualificador, mas indiferente para a sua relação com o outro. Antes da EM existe uma pessoa. Talvez ela não consiga subir escadas, talvez precise do seu apoio para levantar, talvez ande mais devagar, talvez precise ser empurrada, talvez tenha que desmarcar um compromisso agendado por causa de uma fadiga etc. No entanto, atrás de todas essas situações existe uma pessoa.

Só para terminar, gostaria de indicar aqui um comercial que diz muito sobre essa relação deficiência e amizade. O quanto a deficiência é um empecilho para estar com as pessoas que você gosta?