Cuidar da saúde ou cuidar da doença?

Cresci ouvindo o mundo dizer que era preciso cuidar muito bem da nossa saúde. Alimente-se assim, movimente-se assado, durma 8h por dia, evite o estresse, tenha uma rotina saudável, tome 2 litros de água por dia, faça exercício físico regularmente. Enfim, cuide bem da saúde que seu corpo tem, para que ele continue sendo saudável.

Mas aí, quando eu tive o diagnóstico de esclerose múltipla, além de fazer tudo isso para cuidar da saúde que existe no corpo (sim, uma pessoa com uma doença pode ter uma vida e/ou um corpo saudável), eu tive que aprender a cuidar da minha doença.

Cuidar da doença não é deixá-la ficar grande, forte e bonita, pronta pra nos atacar. Cuidar da doença é tentar entender o que ela faz no seu corpo. E, automaticamente, é entender melhor o seu corpo também. Cuidar da doença é ir no neurologista rotineiramente, fazer os exames necessários, tomar os remédios que “acalmam” a doença e diminuem nosso sofrimento; é saber até onde o corpo vai e até onde a cabeça acompanha. Cuidar da doença não é muito diferente de cuidar da saúde. É uma questão de equilíbrio e de limites.

Algumas pessoas acham que eu valorizo demais a doença, porque eu tento conhecê-la o máximo possível, porque eu falo sobre ela. O fato é que ela está comigo, 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, há 15 anos. Se eu não cuidasse dela, que está comigo, que faz parte do meu corpo, eu não estaria cuidando de mim.

Cuidar é querer saber sobre, é olhar atentamente, é conhecer todos (ou pelo menos muitos) os sinais, é entender as mudanças mais sutis que ocorrem no dia a dia. A gente cuida assim de gente. A gente cuida assim dos bichinhos de estimação. A gente deveria cuidar assim da nossa saúde. E eu cuido, sim, da minha doença.

Claro que não faço disso uma missão de vida. Cuido da doença como cuido das plantinhas do meu jardim. Eu não passo o dia todo pensando nelas, mas todos os dias dou uma olhadinha, converso com elas, vejo se tem alguma coisa de diferente, um bichinho comendo suas raízes… Nem supervalorizar, nem abandonar. Cuidar. Cada dia um pouquinho.

Tá certo que a analogia pode não parecer boa, afinal, a esclerose não se parece muito com as lindas flores de um jardim, certo? Mas, enfim, eu prefiro tratar com carinho até a flor que tem espinho. Não é tendo raiva da doença que eu vou me curar. Então prefiro pensar nela como uma parte de mim que precisa ser cuidada.

Cuidar da minha doença é cuidar da minha saúde e é cuidar de mim mesma.

Cuidem-se!

Bjs