Só não vê quem não quer

“A verdade está aí, só não vê quem não quer.” 

Nesses tempos em que vivemos onde todo é qualquer assunto só tem dois lados, quando sobre qualquer assunto que se discuta ou você está comigo ou está contra mim, onde só existe preto ou branco, nenhuma outra cor ou nuance é admitida, essa é frase mais ouvida.

Mas que verdade é essa? Essa verdade absoluta que tanto um lado quanto o outro diz ser tão evidente que só não vê quem não quer?

A verdade verdadeira, aquela que ninguém cita, é de que ninguém tem certeza de nada e que tanto um lado quanto o outro podem estar certo em seus argumentos e ambos errados também.

Quando alguém diz que uma alimentação saudável é a chave para uma vida saudável, “só não vê quem não quer”, posso dizer que essa pessoa está certa, mas também posso rebater esse argumento dizendo que uma alimentação saudável não é uma questão de só de escolha, já que ela não esta acessível para todo mundo, “só não vê quem não quer”, e eu também estarei certa.

A pessoa que é militante da alimentação saudável me dirá que apesar de ser mais cara e inacessível, é um investimento que vale a pena, “só não vê quem não quer”. E ela estará coberta de razão. Mas aí eu direi que pra que haja esse investimento, é preciso que haja um mínimo de condições para isso, que alguém que possui pouco dinheiro para comprar comida, terá que optar por alimentos saudáveis para 10 dias ou alimentos menos saudáveis para o mês todo e que ninguém conseguirá ficar saudável comendo só 10 dias por mês, “só não vê quem não quer”, e também estarei coberta de razão.

Este exemplo é uma forma de demonstrar que devemos deixar nossas paixões de lado e prestar atenção em todos os aspectos de algo que nos é colocado como verdade absoluta. Na política, na saúde, na vida familiar, na cultura, na alimentação, na ecologia…enfim, tudo pode ser observado de diversos ângulos distintos e de cada um ter uma visão diferente.

Uma das primeiras coisas que todos nós aprendemos sobre a Esclerose Múltipla é que ela se manifesta de forma diferente em cada pessoa, que o tratamento que faz muito bem para um pode ser nocivo para outro e que cada um terá suas próprias reações e responderá ao tratamento de forma diferente.

E na vida as coisas não são diferentes, cada pessoa vive uma realidade diferente, cada um tem as suas necessidades, seus relacionamentos, sua dinâmica familiar, sua condição financeira, seu grau de instrução, sua capacidade de aprendizado, seu poder de entendimento. Então, uma pessoa que pensa de forma muito diferente da sua, seja sobre que assunto for, não é burra, estúpida ou mau caráter, ela apenas vê as coisas de forma diferente e deve pensar que você é que uma pessoa burra, estúpida ou mau caráter por não conseguir enxergar a mesma verdade que pra ela é tão clara!

Eu dei outros exemplos porque isso acontece em vários aspectos da nossa vida, todos os dias. Em grupos maternos existem as mães do parto normal que ofendem e criticam toda aquela que se submeteu à uma cesariana, as que amamentam e julgam de criminosas aquelas que não puderam ou quiseram fazê-lo. Em grupos de Esclerose Múltipla existem os defensores de tratamento A ou B que falam como se eles e só eles soubessem toda a verdade sobre a doença e sua cura e que quem não os segue é isso ou aquilo.

É óbvio, pelo momento que vivemos, que eu gostaria mesmo é de falar de política. Mas como eu mesma disse, o que é evidentemente verdade pra mim, pode não ser nada evidente para os outros e vice-versa.

O motivo desse texto é pedir que cada um de nós faça o exercício de ouvir o outro lado como se não tivéssemos opinião formada. Refletir sobre todos os pontos, os prós e os contras. Não para mudar nossa opinião, mas para conseguir enxergar um pouco daquela verdade absoluta que o outro lado diz que vê. Para que numa discussão (no sentido de argumentação, não de briga) possamos ter outros argumentos para reforçar nossa posição, argumentos fundamentados que não sejam xingamentos ou apelidos que nada agregam à conversa e só acirram os ânimos. E para que saibamos o que fazer conforme os acontecimentos vão se desenrolando. E para que ninguém julgue o seu amigo. No fundo, todos queremos a mesma coisa: um país melhor, só não vê quem não quer! Resta decidir que país queremos, o que de fato é melhor para todos.

Boa reflexão!