Qual é a relação entre Síndrome de Burnout e doenças crônicas?

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Pressão no trabalho pode provocar esgotamento mental e piorar sintomas de outras patologias, como Esclerose Múltipla

 

Nesta reportagem, você ficará sabendo que:
– A pressão no trabalho e o excesso de tarefas podem provocar a Síndrome de Burnout;
– Em muitos casos, o sofrimento emocional potencializa os sintomas de doenças crônicas, como EM;
Ansiedade e depressão afetam 47,3% dos trabalhadores no Brasil e na Espanha durante a pandemia, segundo pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz);
– O tratamento precisa ser multidisciplinar, com consultas ao psiquiatra e psicoterapia.

No final de 2019, Julia G. passava por um momento de grande estresse no trabalho, com suspeita de Síndrome de Burnout. Entre o Natal e o réveillon daquele ano, ela se lembra de ter acordado com o pé direito formigando. “Pensei que havia dormido em cima do braço. Não comentei com ninguém, vivi aquele dia normalmente, sai com os amigos em um bar para celebrar o fim do ano, com aquela sensação me incomodando. No dia seguinte, a sensação de formigamento começou a subir pelas pernas, tronco e braço. Achei que era estresse, pois estava passando por um desgaste mental e emocional muito grande naquele período”, lembra.
Julia começou a sentir o rosto formigar e resolveu ir ao pronto socorro: “Após exames, fui internada e fiquei por 30 dias (estava tendo meu primeiro surto de esclerose múltipla). Foi um diagnóstico rápido, precoce e assertivo, diferente, eu sei, do que acontece com a grande maioria, mas por outro lado, foi um ano bem intenso, com diversos tratamentos para tentar estabilizar minhas lesões”.
Ela foi perdendo sensibilidade, força e começou a ter um tremor na perna esquerda. “Meus dois lados foram afetados, alguns pontos recuperei por completo, outros vão e vem e o resto aprendi a conviver”, conta. Na mesma época, Júlia foi diagnosticada com Síndrome de Burnout: “Sentia ansiedade, dificuldade para dormir, cansaço, falta de foco e concentração. Costumo dizer que é interessante pensarmos ao pé da letra mesmo, é como se fossemos uma vela que estava acesa, e então ela se apaga e para de funcionar. Já não tinha mais energia”.
A neurologista Raquel Vassão Araujo avalia que o estresse crônico pode estar relacionado com um pior funcionamento do sistema imune, que pode ficar mais inflamado, piorando a fadiga: “Além disso, um fator importante para quem tem EM é uma fadiga, que não é um cansaço habitual, né? É como acordar depois de uma maratona sem ter tido descanso. A fadiga vai se relacionar com Burnout do ponto de vista que a pessoa já está esgotada do trabalho. Mas isso vai depender de como quem tem EM encara a doença e o trabalho. Óbvio que é possível afetar as duas coisas negativamente, saúde mental e física”.

Para o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos, um ambiente gerador de estresse pode ser desafiador para quem tem doenças autoimunes. “Isso porque elas promovem uma alteração hormonal que interfere na liberação regular de substâncias inflamatórias liberadas pelo corpo. Doenças como a esclerose múltipla têm repercussões físicas, cognitivas e psicossociais. Isso pode interferir na capacidade de se posicionar adequadamente no trabalho. Portanto, cada vez mais as empresas precisam voltar sua atenção para a promoção da saúde mental no trabalho”, pondera o médico.

Júlia G. percebe uma relação direta entre a saúde emocional e os sintomas da esclerose múltipla. “Muita! Eu sinto que quando minha saúde mental não está boa eu tenho surtos, meus sintomas se intensificam, meu tremor aparece com mais frequência. Inclusive, o meu Burnout foi gatilho para descobrir o meu primeiro surto”, ressalta.


Sintomas da esclerose múltipla podem afetar Burnout e vice-versa
Crédito: Pixabay/ Engin_Akyurt

E, em um cenário de pandemia, a situação é ainda mais grave. Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que analisou o impacto da covid-19 e do isolamento social na saúde mental de trabalhadores essenciais mostrou que sintomas de ansiedade e depressão afetam 47,3% dos funcionários O estudo foi feito no Brasil e na Espanha.
“E isso parece ter ocorrido por fatores como o medo excessivo de perder o emprego que fez com que as pessoas aumentassem a carga de trabalho a fim de, a partir de um aumento de performance, garantir a cadeira na empresa. Além disso, a dinâmica do trabalho em home office também trouxe consequências. Primeiro por um aumento do número de horas trabalhadas, abolição de pausas entre reuniões”, analisa o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos.
A neurologista Raquel Vassão dá algumas dicas importantes, independente de o paciente ter ou não uma doença crônica: “Trate o trabalho como um trabalho: ele é uma parte importante da nossa vida, mas tem outras. Aprenda a separar os horários, ainda mais quem está trabalhando em casa. Não estenda os horários de trabalho e usar estratégias de fazer pausas de 4, 5 minutos para ter um momento de respirar.


Fazer pausas, exercícios físicos e de respiração são medidas fundamentais para aliviar o estresse.
Crédito: Pixabay/Pexels

Além dos tratamentos para esclerose múltipla, Júlia G. aprendeu que é importante entender qual o seu limite. “E nunca achar que sempre podemos ir um pouquinho mais. Nosso corpo nos dá sinais o tempo todo e devemos respeitá-los. Faça pequenas pausas, bloqueie horários na sua agenda para lembrar de respirar e caminhar. Não se compare aos outros, cada um tem seu caminho e somos únicos. Tenha um hobby, algo que não seja relacionado ao trabalho, e principalmente, encontre uma rede de apoio”, aconselha.
O psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos também dá uma orientação para quem tem doença crônica e está prestes a explodir no trabalho. “Antes de mais nada é preciso que a pessoa se coloque em primeiro lugar, independente de ter ou não uma doença mental. Colocar-se em primeiro lugar é respeitar as próprias limitações, conseguir colocar limites ao trabalho excessivo, como se posicionar perante aos chefes, e se desligar de ferramentas como email e Whatsapp fora de horários comerciais. Além disso, tentar levar uma vida mais regrada possível com uma boa alimentação, sono saudável com no mínimo seis horas e praticar meditação e exercícios físicos. Tendo dificuldade, vale procurar um profissional de saúde mental que pode ser um psicólogo ou psiquiatra”, conclui.

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