Eu apenas queria que a Esclerose soubesse

Oi gente, tudo bem com vocês?

Por aqui tudo bem. Hoje é o dia do meu aniversário. Faço 29 anos. Desses 29 anos, 15 são com a nossa parceira, Esclerose Múltipla. Uma parceira que eu não escolhi, é verdade. Mas, enfim, está comigo sempre.

Quando eu era mais novinha e minha mãe perguntava o que eu queria de presente de aniversário, de vez em quando eu respondia: uma mielina nova manhê! 

Que cruel! Que injusto! Isso não se diz pra uma mãe. Não se diz que se quer exatamente a única coisa que ela não pode dar. E eu digo isso porque quando eu ouço o Jota dizer que quer uma mielina nova, pernas novos, braços novos, eu engulo o choro e seguro a lágrima no canto do olho, porque isso, meu amor, eu não posso dar. Se pudesse, teria dado no dia 15 de junho, quando foi o aniversário dele (podem dar os parabéns atrasado).

Mas acho que eu eu fui crescendo, fui me acostumando com a EM. Não que eu não queira a cura da EM. Lógico que eu quero. Mas ela deixou de ser algo essencial, fundamental para a minha felicidade e passou a ser uma esperança que, se chegar, vai ser muito bom. Porque hoje eu quero tantas outras coisas mais do que o fim dela… Acho que a idade foi me trazendo serenidade. E é por isso que eu gosto de fazer aniversário, porque sei que não tô só completando tempo aqui na terra…estou aprendendo.

Pensando sobre isso, lembrei de um texto que eu escrevi em agosto de 2013 (e que tenho um carinho por ele) lá no Esclerose Múltipla e Eu, onde eu digo o que falaria pra Esclerose Múltipla se ela fosse uma pessoa e estivesse na minha frente (antes de ler, desce lá embaixo no post e liga o som junto) e que copio partes aqui:

eu não sei se diria muita coisa ou se ficaria sem fala. Porque mesmo ela estando comigo há tanto tempo, eu conversando com ela todos os dias, negociando, brigando, agradecendo, ia ser estranho ter ela personificada.
A coisa que eu mais gostaria de saber da EM é o que faz ela existir. Mas não sei se seria justo perguntar isso pra ela. Talvez ela seja como nós, existe mas não sabe exatamente a razão de sua existência. Aí ela ficaria com esse dilema filosófico de porque eu existo, o que vim fazer aqui, etc. Já que é pra personificar, coloquei sentimentos na bichinha…ehehhehe.
Talvez eu convidasse ela pra ver o pôr-do-sol, sentaria com ela num banquinho e ficaríamos lembrando de tudo que passamos juntas. Ela ia se emocionar com o pôr-do-sol e talvez entendesse porque é importante pra mim poder caminhar pra ver esse momento lindo do dia todos os dias.
Eu contaria sobre todas as pessoas que eu amo, mostraria fotos com elas. Contaria sobre meus sonhos. Talvez ela entendesse o quanto é importante pra mim estar bem, pra não fazer essas pessoas que eu amo sofrerem com a minha doença.
Eu mostraria pra ela crianças brincando num parque, correndo, felizes sob o olhar atento e orgulhoso de suas mães. Talvez ela entendesse o sofrimento da minha e percebesse que eu sonho em ser uma dessas mulheres um dia também e que, quando eu for, vou querer ter forças pra pegar minha filhota (ou filhote) no colo e me abaixar pra brincar ou beijar um joelho ralado de alguma brincadeira.
Eu mostraria alguns textos meus pra ela entender porque é tão importante pra mim poder continuar lendo e escrevendo.
Eu serviria bolo de chocolate com uma xícara de café, pra dizer pra ela que, quando eu faço pulso não consigo comer nem isso nem outras coisas deliciosas que eu adoro. Pra ela ver quanto eu perco quando tenho um surto. Talvez eu fizesse ela comer cera de ouvido, pra ela saber o gosto que pulsoterapia tem…hehehe.
Faria ela andar com pesos nas pernas e ficaria espetando os braços dela com alfinetes. Porque só quem passa por essas coisas entende o quanto é ruim.
Eu diria pra ela que eu não a odeio mais. Não todos os dias. Que eu já entendi que nem ela nem eu saberemos o porque da existência dela em mim, mas que estamos fazendo um bom trabalho juntas, ainda que eu trabalhe muito mais e ela tente fazer esse trabalho parecer em vão.
Eu pediria que ela não fosse fazer parte da vida de outras pessoas. Porque eu já estou habituada a ela, mas é muito difícil chegar nesse ponto e eu não gostaria de ver mais ninguém tendo que conviver com ela. Tipo, chega, já tá bom… já tem pessoas o suficiente com EM no mundo.
Eu pediria pra não ter mais surtos, porque eu sofro muito a cada surto novo. Pediria que ficasse comigo só com os sintomas cotidianos, que já dão uma trabalheira.
Eu mostraria pra ela que não sou mais aquela menina que ela conheceu há 15 anos. Aquela menina já era porreta e era feliz pra caramba, mas não era tão segura nem se amava tanto, nem tinha noção do quanto seria feliz. Eu diria que eu só queria que ela soubesse que eu sou feliz e continuo carregando muitos sonhos.
Pensando em coisas que eu diria pra ela, e escrevendo "eu só queria que ela soubesse", lembrei duma música do Gonzaguinha. Ele fez uma música pra eu cantar pra EM personificada, acreditam?
A música diz assim:

Eu apenas queria que você soubesse 

Que aquela alegria ainda está comigo

E que a minha ternura não ficou na estrada Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho
Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta

Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também
E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora

É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida

Eu apenas queira que você soubesse

Que essa criança brinca nesta roda

E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida

 

Ah…e quase esqueci… ainda estou recebendo presentes de aniversário viu…e nem precisa ser uma mielina nova…hehehehe

Até a próxima!

Bjs

https://www.youtube.com/embed/Q4H5x8ScDLs