Cessação da aposentaria – O que fazer?

Lá fui eu para mais uma perícia! Desta vez, depois de quase onze anos de aposentada – confira o recebimento da carta aqui . Munida de laudo médico e exames recentes, lá fui eu de novo! Uma espera de aproximadamente duas horas e eu fui chamada. A médica me olhou e perguntou o que eu tinha trazido. Apresentei tudo o que tinha, faltavam os laudos da oftalmologista e do psiquiatra – minha consulta com eles estava marcada para semana seguinte e achei que não seria necessário antecipá-las – estava enganada! A perita, após ler todos os meus documentos e escrever no computador, me olhou e disse que iria me examinar. O exame foi feito com uma caneta! Pediu que eu acompanhasse os movimentos da caneta com os olhos, pediu que eu apertasse com força suas mãos e pronto! Ela me disse: Você está bem! E eu respondi: sim, estou bem, por fora, estou ótima! Ainda brinquei… Fui para casa e às 21h o resultado da perícia estava no site: Cessação da aposentadoria.

E agora? No início eu me desesperei e muito. Como fazer para voltar ao mercado de trabalho após 11 anos? E a fadiga mental? A fibromialgia? A depressão, que embora controlada, esse foi um gatilho para me tirar do prumo: dose de medicação aumentada! O que fazer com a minha mudança de humor? Com a dificuldade de socialização que eu fiquei depois do último surto? E o déficit de memória? Fui invadida por um turbilhão de emoções que me levaram à exaustão! Médicos da semana seguinte desmarcados, pois eu não tinha condições físicas de sair de casa. Minha Neuro, mesmo de licença maternidade me dando todo o suporte do mundo! Dra Fabíola não existe, gente! Depois de uma semana praticamente de cama, eu precisava agir – era a minha vida que estava em jogo: cessação da aposentadoria – parecia um pesadelo!

Eu tinha 30 dias corridos, a contar da data de recebimento da carta, para interpor recurso pela cessação da aposentadoria. Liguei para o 135 e para minha surpresa eles não têm data para eu ser atendida na unidade que me aposentou: Tijuca/RJ. Anotei o protocolo e conversando com a minha sobrinha ela disse: tia, entra pela justiça comum. Você tem direito! Ela é advogada me instruiu ao que fazer. Eu tinha ainda duas semanas para ir aos médicos e entrar no juizado Federal de pequenas causas, da minha região. Foi uma semana agitada! Graças a Deus a terapia ajuda a organizar as ideias!!!! Assim eu fiz! Dessa vez, munida de mais laudos para comprovar o óbvio, afinal, eu estou nos médicos regularmente – faz parte da rotina de qualquer esclerosado! Agora é aguardar a decisão do Juiz.

Tudo isso é tão nocivo para nós, portadores de EM! Existem amigos múltiplos que trabalham? Evidente que sim. Como o nome diz: a esclerose é múltipla – age de forma diferente em cada um de nós. Eu não fiquei com sequelas motoras, apenas visuais. Todas as minhas sequelas são da ordem do invisível e isso é muito ruim para mim. A fadiga, para muitos é vista como preguiça, e a minha além de física é fundamentalmente mental! A depressão ainda é chamada de doença de quem não tem o que fazer (infelizmente o preconceito ainda é enorme), a fibromialgia são as dores de “gente chata” que quer chamar a atenção – elas não cessam com anti inflamatórios, por exemplo! usamos medicações pesadas para combate-la… É MUITO difícil conviver com o invisível, gente! É muito ruim ter que explicar o tempo todo aquilo que o outro não alcança. O resultado é o isolamento, não tem muita saída… A aposentadoria salvou a minha vida!

O que a aposentadoria me proporcionou: Em abril do ano passado, percorrendo o Caminho de Santiago, tive três episódios fortes de fadiga mental, física, visão borrada e turva, tonteira, falta de equilíbrio e agressividade. Relato este que foi publicado no jornal “Folha de São Paulo”Leia aqui. Poder cuidar integralmente de mim ao longo desses quase 11 anos foi fundamental para eu conhecer os meus limites. A aposentadoria me trouxe dignidade, EU PRECISO DELA PARA VIVER E BEM.

O meu sentimento: TRISTEZA por ter que provar o óbvio. A cessação da aposentadoria é uma covardia, no meu caso! Não apenas comigo, mas com todos aqueles que como eu têm o direito e a necessidade de gozar de uma vida mais tranquila, o que faz toda diferença no curso da doença, que é do sistema nervoso central, é degenerativa e não tem cura.