Aceita que dói menos!

Senta que lá vem a história! Esse texto vai ser longo, um pouco raivoso no início, mas prometo que melhora no final.

Neste último mês temos falado aqui sobre coisas que as pessoas nos dizem a respeito da EM, seus sintomas e/ou doenças associadas e que nos incomoda, entristece, magoa.

Coisas como comparar o cansaço de um dia inteiro de trabalho com a minha fadiga avassaladora logo após escovar os dentes.

Ou dizer que o calor é o mesmo pra todo mundo. Até é, mas em mim ele tem efeitos que não tem em quem não tem EM, me deixa mais lenta e eu preciso dobrar o esforço pra fazer algo que já tenho dificuldade em fazer aumentando ainda mais a chance de fadiga.

Dizer que conhece alguém que “se curou disso“ fazendo/tomando tal coisa é tão absurdo quanto cruel. Ou então: “tenha fé minha filha, Deus vai te curar”. Eu tenho fé e é ela que me faz acreditar sempre que amanhã será melhor que hoje. E se um dia houver uma cura, que ela venha pra todos, não só pra mim. 

Acredito realmente que a cura virá, mas minha mãe me ensinou a nunca contar com "o ovo que ainda não saiu da galinha", prefiro trabalhar com aquilo que já tenho.

Discursos de superação também são uma faca de dois gumes: podem ser inspiradoras as histórias de quem consegue fazer coisas incríveis apesar das suas limitações, mas também podem ter o efeito contrário. Porque minhas limitações físicas podem ser menores, mas minhas condições (do lugar onde moro, de vida familiar, financeira, de acesso, de capacidade intelectual, de estado psicológico, entre tantas outras) podem ser mais desfavoráveis.

E ao perceber que meus esforços não produzem os mesmos resultados, me sinto mais fraca, mais incapaz. No entanto, embora meus resultados não sejam incríveis ao ponto de virar matéria na tv, eu me supero todos os dias, de várias maneiras.

Dia desses, compartilhei um texto sobre depressão numa rede social. O post não era de minha autoria embora tenha me inspirado a escrever um desabafo sobre a depressão no meu blog logo em seguida.

Porém, dentre os vários comentários que recebi neste post compartilhado, um em especial chamou a atenção e mexeu comigo. Foi o de uma mulher que não faz parte da minha rede de amigos, não me conhece nem sabe nada da minha vida e veio me dizer que “olhar para o lado as vezes ajuda”.

Tive uma sincera vontade de bater na cara dela.

Sério gente, depressão não é frescura! Não é uma escolha consciente, uma opção de vida. É uma doença, assim como a EM.

Minha resposta para a moça, carregada de ironia: “sério? como é que nunca pensei ou fiz isso?” que é a resposta padrão quando estamos com raiva mas não queremos mandar a pessoa catar coquinho no asfalto.

Mas foi quando ela me retrucou, perguntando justamente sobre essa ser uma resposta padrão, se formávamos uma seita, que eu me pus a pensar.

Pensei no fato de que ela já devia ter sido indelicada/intrometida/sem noção com várias outras pessoas para concluir que essa era a resposta padrão. Ou seja, a pessoa é uma sem noção profissional!

Mas pensei também no fato de que olhar para o lado realmente ajuda. Fazer um trabalho voluntário, ajudar o outro nos ajuda a tirar o foco de nós mesmos, ocupa o corpo e a mente e aquece o coração. Mas não funciona o tempo todo, pois por mais tempo que a gente ocupe nisso, em algum momento vamos pra casa, pro quarto, pra dentro de nós.

É um remédio que pode até aliviar os sintomas, mas não cura. E quando o efeito de uma “dose” passa, nem sempre é possível tomar outra em seguida.

Outra coisa sobre a qual pensei, é que essas pessoas que nos dizem essas coisas que nos ferem, na maioria das vezes o fazem com boas intenções, por ignorância ou porque simplesmente acham que precisam nos dizer algo, seja o que for. Algumas outras pessoas, como a criatura em questão, o fazem por se julgarem melhor que os outros ou detentoras de todo o conhecimento e sabedoria, ou fazem por maldade mesmo, por prazer em ser desagradável.

E foi então que pensei em algo que o Nando Bolognesi fala na sua palestra/espetáculo – “Se fosse fácil não teria graça” – o que surge como um problema, acaba virando a solução. E a solução está no fato de que quem me fala esse tipo de coisas é que é o problema, não eu. Algumas merecem minha condescendência, outras são dignas de pena.

Terminei a tal discussão dizendo que a resposta era padrão justamente para não ser mal educada. E essa acaba sendo a minha solução para toda essa chatice: ironia, humor e, em último caso, se fingir de louca também resolve!

Aceita que dói menos! Ainda dói, mas as coisas tem o valor que damos a elas.

Na maioria das vezes, acabamos por problematizar certas coisas mais do que deveríamos. Acho que a gente deve também pensar no que o outro sente ao nos dizer coisas desagradáveis. E na maioria das vezes é angústia. É amizade ou amor escondidos sob uma capa de desconhecimento. É vontade de ajudar sem saber como.

É claro que vão haver momentos em que não estaremos bem e até um bom dia pode nos fazer sofrer. Acontece. Por isso devemos continuar levando informação às pessoas. Quanto mais pessoas tiverem conhecimento, menos situações como essas iremos enfrentar.

E enquanto esse dia não chega, vamos rir. Porque chorar entope o nariz!