Tombos de uma Esclerosada

Por: Janaina Machado.

Lembro que quando criança eu caia de vez em quando, levava uns tombos aqui e ali. Na adolescência me recordo de um bem ridículo quando eu, meu pai e minha mãe, mudamos de uma casa para um grande apartamento. Eu tinha mais ou menos uns 20 e poucos anos. Ainda moro nesse apartamento e ele tem um grande corredor, mas na época estava vazio e completamente encerado. A campainha tocou e quando corri para atender, eu simplesmente cai como se estivesse defendendo uma bola de vôlei jogada do campo adversário. Eu escorreguei por um metro, sem saber como até hoje. Deslizei como um peixe fora d’água. Foi absolutamente do nada. Dessa vez, ri sozinha e minha mãe esperava do lado de fora impacientemente e eu não conseguia dizer uma única palavra ou gritar por ajuda. Eu não conseguia me levantar. Esse fato me marcou, pois achei completamente estranho o que aconteceu, como se alguém tivesse me empurrado. Foi muito complicado recobrar a voz e me levantar. Estava estatelada no chão sem força alguma. Nunca pensei que poderia ser algo. Acho que já era um sinal.

O diagnóstico de EM veio realmente aos 40 anos de idade, perto do Natal de 2003. Não tinha a mínima ideia de que doença era essa, como ela se comportava no corpo e como poderia afetar minha vida. O primeiro neurologista me deu 10 anos de vida e posso dizer foi um choque horrível. Começou com uma inflamação no nervo ótico, dormência no rosto, braços e pernas, falta de equilíbrio, enjoos, irritação profunda e visão dupla.

Lembro que dois anos antes, voltando de Belo Horizonte, de um evento que organizei para clientes da multinacional que trabalhava, ocorreu um tombo que me machucou para valer. Meu namorado foi me buscar no Santos Dummont. Colocamos as malas no carrinho, e conversando com ele, de repente não ouvi e vi mais nada. Quando me dei conta estava de joelhos no chão, em posição de reza e ouvindo meu namorado me chamando pedindo que eu levantasse, mas não conseguia. Meus joelhos doíam muito. Quando consegui dizer a ele que não conseguia levantar, ele me ajudou, mas minhas pernas pesavam uma tonelada. O fato é que meu cérebro teve um apagão de milésimos de segundo. Tudo escureceu e eu já estava no chão. Meus joelhos ficaram completamente inchados e roxos por mais de uma semana. Nada se quebrou. Olhamos para o chão procurando um piso fora do lugar, mas tudo estava em ordem. Do nada, cai de novo e não conseguia me levantar, pois meu corpo, pesava o dobro do normal.

O terceiro tombo foi o pior de todos. Estava na porta da empresa com duas amigas e quando começamos a andar, alguém desligou a luz. Meu cérebro teve outra descarga de apagão. Só que dessa vez, eu senti que cairia, e para não dar com o rosto nas pedras portuguesas, que estavam soltas no chão e quebrar nariz e os dentes, consegui antes de apagar, virar o meu rosto. Dessa vez, eu já tinha o diagnóstico de EM. Minhas amigas e os colegas da empresa se assustaram ao ver eu me estabacar naquele chão perigoso, de salto super alto, pois sempre trabalhei de terninho e scarpins. Em questão de segundos, novamente, não conseguia me levantar e os amigos ajudaram, mas meu tornozelo rompeu. E meu corpo, sempre depois do tombo, não sei por que, dobra de peso, e eu sozinha não me levanto. Tive que ser levada para o hospital e saí de lá, com uma bota Robocop protegendo o tornozelo, pé e tíbia. Estava bem inchaço e ainda, me ralei toda nos braços e mãos. Quebrei unhas da mão, me sujei toda, a minha blusa ficou toda rasgada. Meu óculos de sol se quebrou. Uma dor horrível tomou conta de meu corpo. Relatava estes apagões ao novo neuro, mas ele sempre dizia que tombos eram normais. Fato que discordava plenamente. Ninguém apaga desse jeito.

Agora, nós temos que aprender a não aprontar e o último é mais recente, eu mesmo provoquei, querendo pegar uma bolsa dentro de meu armário e que estava no alto. Em vez de usar uma escada, apoiei meus pés na cama e na cômoda. Claro que escorreguei e cai sentada. Caí de uma boa altura e com toda força no chão. Poderia ter quebrado a coluna. Foi um tombo na frente de minha mãe, que avisou para não fazer essa arte de criança. Ela ficou desesperada, porque não conseguia me levantar. Quando a dor passou, me apoiar na cama para ficar novamente em pé. No dia seguinte, estava toda dolorida. Tive muita sorte nesse último tombo arteiro.

Mas, foi com medo desses apagões relâmpagos, que eu comecei a tomar providências. Ter mais cuidado comigo. Quebrar meu tornozelo e me ralar toda, foi o ápice e algo deveria fazer. A arte não conta, porque sabia e eu mesma provoquei. Quando trabalhava, tomava muito cuidado com as cadeiras de rodinha, todas as empresas adotam este tipo de assentos (excelente para dar tombos), tinha um apoio para os pés para manter a postura, mas tinha que ter atenção, pois poderia prendê-los e, providenciei um apoio de teclado para meus pulsos, que sempre doeram muito. E apesar de ter um trabalho estressante, passei a andar mais devagar, subir as escadas com cuidado para não tropeçar, e abaixei os saltos de meus scarpins. Procurei usar solados emborrachados e troquei o salto super fino para uns mais grossos. Era obrigada a usar sapatos assim, pois tinha contato direto com a diretoria da empresa. Tinha que ter um look impecável.

Em casa, tirei os tapetes de meu quarto, permaneci com os móveis no mesmo local para não esbarrar, pois assim já estavam decorados em meu cérebro e poderia andar sem problemas. Mas claro, que a falta de equilíbrio piorou um pouco e às vezes, até hoje, consigo umas manchas roxas nos braços e pernas. No banheiro foi colocada uma barra de ferro e uma cadeira para os dias de muita fadiga. Como ajuda, em caso de tonturas e vertigens a barra de ferro e a cadeira são protetores intensos. Um tapete emborrachado, antiderrapante, tem dentro e fora do boxe e evita muitos tombos. Em casa maiores, e se você estiver sem equilíbrio, barras no corredor podem ajudar. Vi essas barras espalhadas em toda a casa de minha dermatologista, pois seu marido por causa de um problema grave no coração, ficou bem fraco e para ele não cair, ela espalhou barras de ferro por todos os lados.

Tive que usar bengala e veio a aposentadoria por invalidez, após um surto fortíssimo em 2014, onde tive tetraplegia, aboli sapatos altos definitivamente e depois de minha recuperação comecei a usar somente sapatilhas, mules, sandálias e para festas sapatos ou scarpins com saltos blocados, o que dá total segurança e equilíbrio. Meu neurologista avisou que o tempo posso ir aumentando, mas apelo agora para a segurança de meu corpo. Raramente, uso vestidos longos com saias muito rodadas, pois pode embaralhar nas pernas ao subir umas escadas ou com um forte vento. Somente uso vestidos dessa forma em eventos que possam exigir um look mais elaborado, mas nada como uma saia midi ou lápis. Tem alturas ideias para evitar tombos. Uso muita calça cumprida no dia a dia e sempre que vou vestir, para não cair, procuro sentar e vesti-la. Outro cuidado primordial. Nunca se deve vestir calça cumprida em pé, sem ter apoio algum.

Para andar em casa uso chinelos emborrachados e seguros, e os deixo de uma forma que ao sair da cama, possa calçá-los sem problemas. Todas as cadeiras da cozinha tem os pés com adesivos de borracha o que evita cair ou escorregar. São alguns cuidados que aprendi, com os 15 anos de EM. Subir e descer escadas com cuidado. Olhar sempre para o chão, pois pode ter um buraco pelo caminho e, se estiver em um shopping ou outro lugar, até mesmo dentro de casa com um piso molhado e escorregadio, evitar ao máximo não andar sobre ele. Tome muito cuidado com capachos (tapetes que ficam na porta da entrada da casa, eles são danados para provocar tombos, já quebrei meu pé pisando em falso em um deles). São pequenas dicas que dou para meus amigos, simples e principalmente, para as mulheres. Homens podem fazer o mesmo, com sapatos com solados emborrachados e tênis. Já temos Esclerose e um tombo, pode piorar nossa condição. Então, vamos evitar a todo custo essas caídas desnecessárias. São dicas simples. É só você adotar.