EM e trabalho (parte 2) – Contar ou não contar?

Essa questão é muito difícil e precisa estar amparada em uma avaliação pessoal sobre diversos fatores. Uma pergunta que fatalmente deve ser feita é: o fato de você se declarar um esclerosado é positivo, negativo ou indiferente? Às vezes, revelar a preexistência de uma doença como a Esclerose Múltipla pode ser um ponto desabonador; às vezes revelar a EM é justamente aquilo que possibilitará uma maior compreensão de seus companheiros ou mudanças efetivas no ambiente de trabalho. A verdade é que nem sempre dá para contar, já que ter EM pode ser visto como uma desvantagem para o empregador, que embora legalmente não possa te demitir por conta da doença, em caso de entrevista, pode não lhe chamar após um processo admissional muito sincero. Ainda não vivemos no mundo ideal, em que as qualificações bastam, independentemente dos preconceitos.

Qualquer tentativa de formular regras universais aqui se mostra inútil, pois cada caso deve ser analisado em sua singularidade. Ainda mais levando em conta o quanto o trabalho é necessário à obtenção de recursos e à própria manutenção da vida. A decisão não é uma escolha puramente subjetiva e pessoal, mas deve se levar em conta as condições e estruturas da empresa e o tipo de trabalho que se exerce. Todavia, apesar de todas variáveis, exemplos, histórias e soluções possíveis, nossa ação se estrutura basicamente em duas opções: Contar ou não contar!

Caso decidamos contar, dependendo da compreensão e vontade dos outros, talvez consigamos adaptações e horários mais flexíveis. De certa forma, só revelando nossas necessidades é que algo poderá ser feito. O diagnóstico sozinho não é capaz de lhe impedir de realizar uma função, mas certos sintomas podem. A isso temos que pensar no quanto a esclerose influencia em nossas atividades. Assim, há de se perguntar: o prejuízo é apenas financeiro ou pode prejudicar ainda mais nossa saúde?

Meu objetivo nesse texto é pensar apenas sobre o primeiro aspecto, deixando o segundo para o post que vem. Ao falarmos unicamente de prejuízos financeiros, a decisão cabe principalmente sob o seu empregador. A revelação de uma doença pode nos atrapalhar no trabalho, mas de certa forma nos dá uma estabilidade, pois legalmente o empregador não pode nos demitir especificamente por causa da EM. Mas nem sempre o que e justo é aquilo que acontece de verdade e às vezes é necessário enfrentar disputas judiciais desgastantes.

Ou, ao contrário, talvez a nossa função e trabalho sejam tão importantes e bem feitos que valham à pena certas adaptações no serviço, como horários mais flexíveis ou um ambiente mais confortável. Às vezes, mesmo com todas as necessidades especiais que necessitamos, nossa produtividade é tão mais efetiva que rapidamente resolvemos certas coisas que outros demoram muito mais tempo. Pela rapidez na execução ou qualidade do serviço, é preferível que um indivíduo seja tratado de forma diferente para que seja ainda mais eficaz. Nesse caso, mesmo que a esclerose seja uma “desvantagem”, nossa capacidade ainda vale o esforço.

Também, algo que temos que ter em vista é que nem sempre dá para esconder. Nosso corpo nos dedura e fica ainda mais evidente a necessidade de condições especiais e de um tempo que não é o do relógio. Aí, não dá para sermos tão pragmáticos. Mais do que questões unicamente financeiras, temos de pensar em nossa saúde mais detidamente e avaliarmos a permanência no trabalho.

Caso não seja possível se manter no emprego, há sempre a possibilidade de buscar uma aposentadoria ou um seguro doença, elementos que possam lhe assegurar o mínimo de sustentação financeira. Com essa garantida, podemos até continuar trabalhando em atividades voluntárias ou sem grandes objetivos de capital.

Outra situação diferente, mas igualmente importante, é no caso de você não estar empregado no momento, mas estar procurando emprego. Nessa condição, fatalmente temos que passar por uma entrevista e somos conclamados novamente à fatídica questão: contar ou não contar?

Talvez nossa sinceridade seja um motivo para que uma empresa não queira contratar alguém com esclerose, talvez queiram utilizar da situação para nos oferecer uma vaga para pessoas com deficiência, em sistema de cotas. A isso há duas questões a se pensar melhor: 1) o cargo oferecido é coerente com seu grau de instrução ou a vaga é oferecida apenas para funções menos importantes?; e 2) nem sempre a EM acarreta uma deficiência ou condição visível. E vem a questão se essas cotas são obrigatoriamente para pessoas com deficiência ou podem ser utilizadas igualmente para pessoas com uma doença em especial, mesmo que sem deficiência? Mesmo assim, precisamos de condições especiais. Não conseguimos trabalhar sob a mesma estrutura e ritmo dos outros.

Se escolhermos não contar, nem sempre essa opção será benéfica ou mesmo garantida. Como ninguém saberá, fadigas e dificuldades podem ser vistas como corpo mole e, com um rendimento abaixo em relação aos outros, isso pode induzir uma demissão. Comportamentos que seriam compatíveis com pessoas diagnosticadas com EM, sem a revelação dessa situação na empresa, sintomas e saídas para tratamento podem ser vistas como preguiça, falta de compromisso ou de responsabilidade. Podemos ser taxados de lentos que não conseguem acompanhar o ritmo das máquinas, desajeitados e descoordenados que não conseguem fazer atividades manuais simples, fracotes que não conseguem pegar algo pesado ou abrir um pote ou garrafa etc. Os exemplos são muitos e se as pessoas já julgam sabendo da doença, não sabendo então… infelizmente, as coisas tendem a piorar.

Há também a possibilidade de não tornar pública a nossa condição e tentarmos acompanhar o mesmo ritmo dos outros. Talvez, tenhamos apenas que nos esforçar mais, mas talvez, esse esforço e essa energia gastos além dos nossos limites podem nos trazer a piora de sintomas e um provável afastamento do trabalho. Igualmente, mesmo que se queira esconder a doença, pode ser que caiamos na análise médica no trabalho, seja na admissão ou execução de um serviço. Um parecer “não está apto” ao trabalho pode ser frustrante. Talvez fosse melhor ser eliminado ou reencaminhado ainda nas primeiras etapas.

Aquilo que você procurou tanto esconder pode ser revelado em um exame médico. Isso não é culpa unicamente do esclerosado, mas da dinâmica social e da organização do trabalho em nossa cultura. Algo que nos faz se aterrorizar com essa pergunta: contar ou não contar? Um dilema que nos exige uma reação que nem sempre se dá no tempo que necessitamos. Não é fácil e não há soluções universais, mas certamente há muitos elementos a se pensar sobre essa questão. Levantei alguns, mas certamente há muitos mais. Ou seja, no final, apesar de tudo, a decisão está em nossas mãos.

 

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