As tiranias da vontade

Desde os tratados políticos da antiguidade, o tirano é aquela figura que age segundo seus próprios interesses, ignorando o bem comum. Essa imagem, embora carregue historicamente uma representação negativa, nos ajuda a pensar a tensão existente na relação entre cuidado e cuidador. Relutei muito em colocar esse título, por medo de causar uma má impressão, mas gosto dessa ideia. Ao falar em “tiranias da vontade”, o tirano é despersonalizado e assume a função de comportamentos e atitudes. Igualmente não fica claro se a vontade é a de quem tiraniza ou o objeto submetido. Ou seja exerce um sentido amplo e dúbio. E ela pode exercer ambos os papéis.

Como disse no post anterior sou extremamente grato a todos que me ajudam. No entanto, essa relação é complicada, pois fica na intersecção entre dois indivíduos únicos. E assim como as ações individuais precisam ser pensadas, o mesmo se dá nessa relação. Temos uma negociação obrigatória entre um sujeito que reconhece que precisa do outro, precisa de sua ajuda e um outro que se dispõe a ajudar e realizar as coisas por você. Nesse cenário, toda ação tem que ser compartilhada caso contrário se degenera em tirania. A ajuda reforça a falta do outro e a dependência aprisiona.

Às vezes me sinto como um monarca que do alto de sua cadeira de rodas destila ordens: faça isso, faça aquilo, faça daquele jeito. Muitas vezes somos nós que exercemos esse papel. Temos nossa individualidade e gostamos que certas coisas sejam feitas de uma forma x: pode parecer bobeira, mas poder escolher se o feijão vai em cima do arroz ou o arroz em cima do feijão é algo extremamente importante e que ganha ares de “necessidade” nesse contexto. No entanto, devemos estar conscientes e gratos da disponibilidade do outro em nos ajudar para que essa relação não se degenere em tirania.

Nesse caso, transformamos a gratidão em uma obrigação. Achamos que aquilo que é um ato de amor do outro conosco é uma obrigatoriedade. A ajuda se despersonaliza e vira uma função burocrática, que qualquer um poderia exercer. Amizade e contrato são igualados. A ajuda independe se é executada por um amigo ou alguém pago. E assim, faço da minha vontade um instrumento de tirania.

O amor, a gratidão e a amizade que deixam menos tensos os fios que tecem essa relação, se deterioram numa relação bicolor, em que só se percebem os polos dominação-obediência, patrão-empregado, senhor-servo. A lealdade do outro, que era motivo de afeto, transforma-se apenas no cumprimento de uma ordem. Sabe-se desde o começo quem manda e, caso se tenha juízo, quem obedece. Os papeis estão claros de início.

No outro extremo, não exercemos o papel do tirano, mas do tiranizado. Aquele que se dispõe a ajudar deve saber que a ajuda não é uma alienação incondicional da pessoa que está sendo cuidado. O simples fato de reconhecermos a necessidade de ajuda não dá ao outro o poder sobre as vontades alheias. Como venho escrevendo e como diria o grande filósofo Chapolin Colorado: minhas ações são friamente calculadas. Posso não conseguir realizar uma tarefa, mas certamente já pensei e planejei o que fazer para executá-la (mesmo que a ajuda faça parte do planejamento).

E ao contrário da ajuda ou da não interferência esperada, a reação do outro a uma ação sua pode ser aquela que justamente vai lhe exigir toda uma reprogramação da situação. Você refletiu como chegar a certo lugar e tem seu plano traçado. Tudo parece bem projetado. Mas aí, por exemplo, alguém entra na sua frente ou lhe segura para ajudar. Eu brinco que meu GPS não é muito bom e é difícil, às vezes, “recalcular a rota”. Eu sei que as pessoas vão na maior boa vontade, mas às vezes lhe complicam.

Uma vez, um amigo foi me ajudar a subir uma escada, tirou minha bengala, me agarrou e foi. Conseguimos ultrapassar aquele obstáculo, mas fiquei com um medo de cair… Você não atravessa um cego que está parado numa calçada sem saber se ele realmente quer atravessar ou se só está esperando alguém. Você não completa as frases de um gago. Você não pergunta a alguém que tem esclerose se ela sabe como chegar em casa. (Se sim, pare de fazer essas coisas agora!!!) A verdade é: quer me ajudar? Pergunte-me como.

Esta é uma fórmula de ouro. Um amigo que é cego disse certa vez que, com uma deficiência, você aprende que o caminho mais curto, nem sempre é o melhor. Isso, pra mim, sintetiza uma experiência complexa e serve como um guia. É comum termos a ideia de que quem está de fora vê melhor e quem ajuda tem sempre as melhores soluções. Mas ao contrário, o que parece aos outros mais difícil pode ser o mais fácil para quem está sendo ajudado. Não adianta dizer para levantar o pé de jeito tal, ir por um certo caminho, acertar isso, consertar aquilo, se não conseguimos isso naquele momento ou sabemos de suas dificuldades..

Às vezes, escuto faça assim, faça assado, segure aqui, se apoie ali… parece que todos sabem o que é melhor para mim. É como se não tivesse pensado naquilo mil vezes antes ou refletido sobre aquela nova situação. No fundo, sei que as pessoas querem o meu melhor, mas às vezes um: se precisar estarei aqui; é a melhor forma de ajudar.

A relação entre cuidador e cuidado pode ser tensa ou pode ser amistosa. Tudo depende da disposição das partes envolvidas. No último post tratei de uma parte dessa relação, a gratidão; hoje dos cuidados que devemos ter para não deixarmos que essa relação se deteriore em mando e obediência. Nessa vez indiquei mais problemas, das próximas quero tratar de coisas que podemos fazer para transformar essa relação em um espaço de escolhas compartilhadas.