EM e eu (parte III-iii) – Tempo e privilégio. Ou o que eu desejo perder

Na literatura, às vezes, a nudez significa uma espécie de rito de passagem. Um momento em que o personagem rasga suas roupas e passa a encarar a realidade de maneira mais sóbria, desvencilhando-se de todas as ilusões. Livre das pompas, cerimônias e símbolos, que justificavam sua condição anterior, segue seu caminho deixando pra trás todas as vaidades e aparências humanas, sentindo-se seguro em seguir sua própria consciência.

Não tenho muito a dar, mas estou nu. Desde 2015, quando comecei a escrever na AME, inicie um contínuo processo de entendimento, que resultou em uma profunda reinterpretação do que eu era e acreditava ser. Assim, descobri um novo eu, que passou obrigatoriamente por refletir, dar sentido e escrever a experiência com a doença.

A exposição pública dos meus temores mais privados foi um tipo de libertação; como se, nesse processo de nudez, fosse deixando uma peça de roupa em cada canto da casa. Talvez seja a hora de tirar a última peça. Uma das coisas que desejei mais fortemente para 2019 é perder todos os meus privilégios. E isso está intimamente ligado ao tempo.

Do século XVIII até mais ou menos a segunda metade do século passado, a percepção hegemônica do tempo era de um tempo progressivo, crente na perfectibilidade constante da humanidade, formas e instituições sociais. Esse otimismo com o progresso era constituído por uma clara distinção entre passado, presente e futuro, que nos empurrava sempre à frente, nos convidando a se afastar do passado e apressar o futuro.

O problema dessa concepção de tempo é que ela individualiza a questão, enfraquecendo a importância da fraternidade e dos laços sociais. Divide em 2 o mundo natural; os evoluídos e os atrasados, os desenvolvidos e os subdesenvolvidos. Assim, diferenças e desigualdades sociais são tratadas apenas como se fossem uma diferença temporal ou estágio evolutivo em que uma pessoa ou coisa se encontra; apagando nossa própria responsabilidade na produção dessas desigualdades.

Dessa forma, somos vistos somente como um elemento exterior ao sistema, em que nossa única responsabilidade ética é ajudar os inferiores; ou melhor, aqueles que consideramos inferiores, nunca iguais. Alguns se sentem em um natural lugar de superioridade devido ao seu gênero, cor de pele, idade, lugar econômico, acesso social ou orientação sexual. E essa postura não é encontrada apenas nas relações humanas, mas, igualmente, podemos enxergá-la na relação de homens e mulheres com o mundo natural. A partir da crença da superioridade da espécie humana frente à natureza, o planeta é tratado apenas como um servo dos interesses, práticas e representações humanas. 

Há anos escuto a frase “tempo é questão de preferência”. Essa ideia é como um lema para a Bruna e passei a vivê-la com mais intensidade com a paternidade. Mas antes de falarmos de preferências (indiretamente, assunto dos próximos posts), temos que falar sobre privilégios. Somos privilegiados de alguma forma e reconhecer isso é o primeiro passo rumo à nudez; rasgar toda opinião egoísta que esteja centrada só no próprio umbigo e nos ganhos que possamos obter. Pra isso, exige-se uma nova forma de pensamento; uma que não esteja focada só em nossa visão de mundo, mas em consonância com o outro, considerado igual. O mundo é muito maior do que o seu umbigo e quem controla o tempo controla a vida.

Assim, tempo é também uma questão de privilégio, pois tudo o que somos, o somos porque alguém possibilitou. Essa ideia do  sujeito que faz a si mesmo, do self-made man, é uma ilusão. Só é verdadeira se levarmos em conta as habilidades de um indivíduo particular em lidar com adversidades, alegrias e de aproveitar o momento, lendo de forma adequada a realidade e os problemas que surgem. Em grande medida, nossos sucessos ou fracassos dependem das relações que constituímos durante a vida; familiares, financeiras, profissionais etc.. Sei que pude só estudar porque tinha uma casa limpinha, roupa lavada, comida no prato e sustento financeiro. Sei que consegui comprar bons instrumentos e ter acesso a bons métodos e escolas de música, porque para além do que ganhava como músico (já fui guitarrista e professor de música) tinha a ajuda dos meus pais. Sei que só pude fazer duas faculdades porque meus pais me convenceram a não desistir da música e prometeram continuar me ajudando com ela. No entanto, desde então, teria que me virar sozinho para fazer História e, às vezes, passava por três cidades diferentes no mesmo dia (São Paulo-Suzano-Guarulhos} para conseguir pagar a república que morava. Não foi fácil, mas ali entendi os limites dos meu privilégios. Foi nesse período também, sentindo na prática e com a teoria essas condições, que percebi que muitos privilégios que tive e tinha eram devido a minha cor, ao meu sexo, à minha orientação sexual, à minha classe.

Passava pelas limitações e facilidades que possuía; de ser de uma classe média que tinha alguns confortos, mas cujos pais estavam sempre endividados, por mais que trabalhassem;  de ser branco, apesar do meu suposto “cabelo ruim”  e minha cara de árabe (antes do Mau-Mau – personagem do Cauã Reymond na Malhação – e com a supremacia da baby face do Leonardo DiCaprio) ter cabelo cacheado e barba cerrada tinham as suas desvantagens na minha adolescência; de ser homem e hétero, mas que por não ser o dito macho alfa e pegador, sofria com a timidez e a insegurança.  Estar por cima ou por baixo é só uma questão de perspectiva, nessa Roda-vida.  Todavia, podemos fazer com que essas relações sejam pautadas no diálogo e na horizontalidade ou no reforço de diferenças e hierarquias;  basta ter empatia e compreender as dores dos outros. É preciso reconhecer que se uma coisa não tem utilidade para nós, talvez tenha para muitos outros. Por exemplo, para alguns faz muita diferença ter uma medicação distribuída pelo SUS e ser atendido em um hospital público. Igualmente, pode-se dizer da educação. Tenho o privilegio de poder ter cursado a graduação, o mestrado e o doutorado em instituições públicas; em uma época em que educação e saúde eram um direito de todos, não privilégio de alguns poucos. Assim, não quero o privilégio insensível que nega o acesso universal

Também não quero outros privilégios… não quero entrar em restaurantes e salas de espera de hospital em que só veja pessoas com o mesmo tom de pele que o meu. Não quero ter o privilégio de ganhar mais unicamente por causa do meu sexo. Não quero privilégio de andar seguro nas ruas por causa da minha orientação sexual. Não quero ter privilégios como locais personalité ou fidelidade.

Na experiência pessoal com a EM… Não quero ter o privilégio de poder ficar em casa descansando ou desmarcar um compromisso, por causa do frio, do calor ou da chuva. Não quero ter o privilégio de ficar deitado durante a noite enquanto o Francisco está chorando e a Bruna de pé com ele no colo. Não quero ter o privilégio de dormir profundamente, apagado por um remédio, enquanto ela fica acordada o fazendo dormir. Não quero ter o privilégio de poder deitar pra descansar enquanto ela faz mil coisas em uma crise de fadiga. Não quero ter o privilégio de acordar minha mãe à noite para me trazer o papagaio para fazer xixi. Não quero o privilégio de darem comida na minha boca ou de preparem meu pão. Não quero ter o privilégio de ter duas pessoas, juntas ou individualmente, me auxiliando nas transferências, muitas vezes, pegando todo o meu peso, e se enchendo de remédios para dores musculares. Enfim, e poderia continuar a lista eternamente, há tantos privilégios que tenho e gostaria de não ter.

Certamente, alguns podem dizer: “oras, mas essas coisas não são privilégios, mas carinho e cuidado, condições da própria doença”. Eu sei e sou muito grato por todos aqueles que me ajudam, mas reconhecer isso, não diminui minha vontade de querer fazê-las por minhas próprias capacidades, mesmo que reconhecidas minhas limitações. E, nesse processo, o tempo é o bem mais precioso que eu tenho a oferecer. Não me importo, assim, de comer comida fria, de terminar de montar meu lanche enquanto os outros já acabaram o jantar, de ir e fazer tratamentos que não gostaria; não privilegiando apenas a minha vontade e esmagando todo o meu egoísmo, ao se preocupar com os outros que me ajudam e com os desprivilegiados.

Vivemos épocas de baixa solidariedade e irresponsabilidade com a existência alheia, onde as pessoas só se ajudam por puro interesse ou como forma de proteger os seus. Mas mais do que uma liberdade econômica ou uma igualdade relativa, precisamos defender e destacar a fraternidade entre todos, homens, mulheres e natureza. Uma liga forte e que nos une sob a mesma casa comum. E que, nessa história de ninguém soltar as mãos de ninguém, possamos fazer uma grande roda, contra o tempo linear e progressista da modernidade, deixando um verso bem bonito para aqueles e aquelas que nos são contemporâneos e, antes de partir, para toda a posteridade.