EM E FAMÍLIA (PARTE V) – UM CAMINHO SOLITÁRIO

Tenho pensado muito em Jesus ultimamente; não no Cristo, no homem. Não sou religioso. Seus aspectos divinos, proféticos e messiânicos pouco me atraem. Interessa-me mais seu lado humano e suas características como exemplo. Esses dias, pelado, cagado e jogado no chão do banheiro, foi em Jesus que pensei. Podia me vir à mente um exemplo de outra religião, ficcional de uma obra literária, alguém da política contemporânea, mas foi em Jesus que pensei quando vi minha mãe desesperada a me ver naquela situação.

Em um desses dias quentes de verão, tentei usar o vaso sanitário, mas não deu tempo. O que era uma simples transferência da cadeira de rodas para a privada, acabou em merda (metafórica e literalmente falando). Meu banheiro é cheio de barras de apoio (6 no total). No entanto, mesmo com apoio, como estava muito quente, minha perna fraquejou e não se firmou; acabei sentando no vaso ainda vestido. Fraco e com diarreia, não tinha nem tempo, nem força, para uma nova tentativa.

Naquela situação, o melhor que podia fazer era tomar um bom banho; me limpar. No entanto, novamente a transferência deu errado. Ao passar do vaso para a cadeira de banho acabei sentando muito na ponta e escorregando para o chão. Vendo minha mãe nervosa com aquela situação e decepcionada por não poder me ajudar mais, falei: me dê banho aqui mesmo deitado no chão. Por mais que ela tentasse fazer planos de como me levantar ou me sentar, aquela era melhor opção; não conseguiria erguer um homem de 75 Kg e que estava todo fraco por causa do calor.

Deitado ali no chão do banheiro, em meio a água, coco e calores, pensei em Jesus. Não pensei nos sofrimentos pelos quais passou como se fosse uma falta que precisava preencher. Como se necessariamente precisasse de um intermediário para atingir algo que não tenho em mim e não posso atingir sozinho. Não estava pedindo a intercessão de um ser divino para que não passasse por aquelas dificuldades ou que me livrasse daquelas provações. Não! Lembrei-me de seu sofrimento para que me desse força em meus próprios momentos de turbulência.

Pensei em seu exemplo mais como um modelo a me inspirar. Algo que pudesse, mais do que suprir uma falta, adicionar elementos para que eu mesmo pudesse cumprir esse caminho sozinho. Não estava pedindo ajuda de alguém maior para que disputasse e vencesse a guerra por mim, mas alguém que estivesse ao meu lado nas batalhas que enfrentasse; um companheiro de trincheira.

No último post, procurei agradecer todas aquelas pessoas que me ajudaram a chegar até aqui e terminei dizendo que assumiria os controles a partir de então. Tal posição parece ser uma atitude ingrata, como se estivesse dizendo: daqui pra frente eu assumo e não preciso mais da ajuda de vocês. Longe disso! Agradeço tanto a ajuda que tive e que terei no futuro, mas, no entanto, há uma parte do trajeto que preciso atravessar sozinho.

Há um caminho solitário, com dificuldades e sofrimentos que ninguém pode passar por mim. Por isso disse estar assumindo a partir de agora e nesse percurso não posso levar as pessoas que me ajudam, só exemplos que guardo no coração. Vitórias e derrotas não são dados objetivos, coisas que podem ser simplificadas como coisas opostas (é isso ou aquilo), mas elementos de uma interpretação subjetiva, fruto da experiência de cada um. Desta forma, não interessa os resultados, mas a maneira aos quais são interpretados. Por isso só peço força, para que sempre seja aquele quem decidirá o que é considerado vencer ou perder, tendo a confiança de que no final foi feita “a sua vontade”.