Acessibilidade: um termo utópico para a grande maioria de nós!

 

Acessibilidade é ter o mundo ao alcance das mãos… e dos pés…

(Bete Tezine)

 

Minha rua não é acessível. Meu bairro não é nada acessível. Minha cidade não tem praticamente nenhuma acessibilidade. Minha casa é o menos acessível que poderia ser.

Eu tenho Esclerose Múltipla e não necessito de apoio para me locomover, na maioria das vezes. No entanto, em algumas situações precisei de cadeira de rodas e, em outras, como agora, estou utilizando bengala e é em momentos assim que percebo o quanto somos tolhidos na nossa liberdade de locomoção, tendo nossa autonomia e mobilidade completamente reduzidas pela falta quase total de acessibilidade.

A Constituição Federal nos garante plena liberdade de ir e vir, ao menos em tese, pois, se o texto da lei sanciona este como um dos direitos fundamentais e imutáveis de todo e qualquer cidadão, os instrumentos para seu efetivo cumprimento estão muito aquém de se tornarem algo palpável e real.

São buracos de todos os tipos, valetas, degraus, rampas obstruídas, pisos com desníveis, calçadas intransitáveis até por quem não apresenta qualquer dificuldade de locomoção, quanto mais para os que são cadeirantes ou precisam de apoio para andarem.

O desrespeito impera, a falta de compreensão impera, o desapontamento impera, a frustração impera, o sentimento de impotência impera, a dependência se faz imperar quando devia ser exatamente o oposto. Devíamos ser realmente livres para transitarmos por onde necessitamos ir com dignidade, respeito e autonomia.

Recentemente, mais precisamente em setembro passado, eu sofri uma fratura no tornozelo e, por conta dos desequilíbrios e pernas enfraquecidas, andar com a ajuda de muletas se tornou inviável e perigoso, então me vi cadeirante por exatos 90 dias. Foi frustrante, foi desalentador no mais exato sentido do termo.

Uma situação que me deixou fragilizada e completamente vulnerável ocorreu em dezembro, quando minha filha participou de uma apresentação no teatro de um grande clube aqui da cidade. Eu fui com meu marido e, chegando lá, ele me deixou na calçada, na cadeira de rodas não motorizada e foi estacionar, coisa complicada naquele dia e horário. Eu o esperava para me guiar pelas rampas de acesso, pois o teatro ficava no piso superior, quando começou a chover e eu, não querendo chegar encharcada à apresentação, resolvi tentar subir sozinha. Que impotência! Que desespero! Que tristeza! Simplesmente, entre o piso e o começo da rampa havia um degrau de cerca de 1,5 cm. Coisa besta, praticamente insignificante para quem tem pernas boas ou força nos braços para impulsionar a cadeira, mas eu não tenho. Então, inutilmente, vi meus esforços irem por terra enquanto meu cabelo, que levei uma tarde inteira para dar um jeito, colava na cabeça e a maquiagem que fiz, para ficar bonita para minha filha, escorria em meio a pingos de chuva e lágrimas. Não consegui subir, fui barrada por um degrau de 1,5 cm… Foi decepcionante e aviltante a minha dignidade humana. A mesma dignidade que a Lei Maior me garante, teoricamente…

Agora, falando da minha casa, percebo que quando aprovamos um projeto de construção e somos saudáveis não nos atentamos para o fato de que envelheceremos e poderemos adoecer precocemente. São exatos 57 degraus internos e minhas pernas não dão mais conta deles.

Sou pesada e, não podendo andar por ocasião da fratura, tive de subir e descer cada uma das escadas sentada, dando impulso com os braços que, apesar de robustos, parecem feitos de gelatina… Eu chorava a cada degrau… de dor interna e externa. Eu vou ter de me mudar rápido, não vou mais conseguir galgar tantos degraus por muito mais tempo e, ficar confinada em um ambiente, só vai me trazer mais impotência.

Diante de tudo isso e, sabendo que meu caso ainda é um dos mais simples, pois, tenho plena consciência que minhas dificuldades não são nada diante das de muitos, eu sei que temos uma árdua batalha pela frente a fim de tornar a vida mais acessível a quem necessita, mais que qualquer outro, ver cumprido integralmente o direito de ir e vir e a plena liberdade de locomoção.

Beijos acessíveis!