Um sincero pedido de desculpas

Nunca esqueça:
A vida também perde a cabeça.

(Millôr Fernandes)

Outro dia escrevi aqui sobre os sintomas cognitivos que são os que mais incomodam, apesar das dores e a fadiga serem os mais debilitantes. Falei da dificuldade que é esquecer as palavras corriqueiras do dia a dia. No entanto, de uns meses para cá, o que mais tem me causado angústias sãos os esquecimentos que andam cada dia mais aflorados. Tenho esquecido de tudo e, anotar, não tem adiantado, pois tenho esquecido de olhar as anotações também.

Semana passada eu tive consulta com minha neurologista que avaliou minhas ressonâncias para saber como anda a atividade da Esclerose Múltipla e decidir sobre a troca ou não do interferon por outra medicação. Notícia boa: apesar de ter tido 3 surtos e feito 3 pulsoterapias, entre dezembro de 2014 e setembro de 2105, não apareceram novas lesões, porém, o lado ruim disso tudo, é que mesmo assim estou tendo uma piora dos sintomas por desequilíbrios emocionais.

O estresse emocional é um dos gatilhos para que a nossa companheira múltipla se torne mais indisciplinada e nos tome por reféns, fazendo firulas em nosso sistema nervoso, com ares de dona do nosso corpo. Eu tenho vivido momentos maravilhosos em minha vida nesse ano que está acenando seu final, todavia, nem eles estão sendo suficientes para me deixarem livre das emoções negativas por situações das quais não tenho controle e que tenho consciência de que realmente não tenho controle, mas que não tenho conseguido contornar, mesmo com ajuda da terapia e o uso de medicamentos. 

Eu estou tentando, estou dando o meu melhor para não sucumbir e deixar que esta fase se prolongue demais. Não estou simplesmente deixando que os problemas vividos pela descoberta de que minha mãe tem alzheimer e toda a gama de consequências que vêm juntas na bagagem, mais a ausência de aceitação por uma parte da família, mesmo após mais 14 meses de diagnóstico, sejam a premissa maior da minha vida. Eu estou tentando conviver com isso da melhor maneira possível, porém, eu sou humana, sou filha e sempre fui extemamente preocupada com o bem estar dos que me rodeiam, sobremaneira daqueles que são tão especiais para mim.

Bem, voltando à consulta neurológica, após a análise pormenorizada dos meus exames de imagens e físicos, minha médica chegou à conclusão de que o interferon não apresentou falha terapêutica, razão pela qual eu vou continuar fazendo uso dele, troquei de antidepressivo, a dose do meu medicamento pra dor neuropática foi dobrada e vou ser observada por mais um tempo para ver como meu organismo vai reagir diante dessas mudanças.

Eu tenho a exata noção de que as falhas de memória estão ligadas diretamente a todo o estresse desse último ano. Eu sei que tenho de mudar minha forma de enfrentar as situações nas quais não posso interferir. Eu sei que se assim não o fizer não existirão remédios capazes de mudarem esse quadro. Eu sei de tudo isso… contudo, saber é uma coisa e tomarmos as rédeas da situação é outra bem diferente…

Ontem eu completei 48 anos e eu sabia, pois tinha visto, revisto, anotado, reanotado que tinha de escrever meu post aqui, no entanto, pela segunda vez consecutiva, eu esqueci completamente. Simplesmente esqueci, como se tivesse passado uma borracha na minha memória… Que triste que isso é para mim. Como me sinto mal por esquecer coisas tão importantes. Agora sei que não basta mais anotar, ter uma agenda, amarrar barbante nos dedos, usar recursos mnemônicos, eu presido de um quadro enorme com letras garrafais, bem ao alcance dos meus olhos, para que eu não esqueça mais de fazer o que preciso, no tempo em que preciso e da melhor forma possível. 

Por fim, quero me desculpar com todos por meus lapsos de memória e dizer que tentarei, de todas as formar, não permitir que isso venha a acontecer mais uma vez. Nem isso nem outros esquecimentos que estão me causando ainda mais estresse.

Um beijo carinhoso no coração de todos!