medalha de ouro para a ignorância, o preconceito e o desrespeito.

A história é a seguinte: um rapaz participa do revezamento da tocha olímpica em sua cadeira de rodas. Ele é um atleta de basquete em cadeira de rodas. Em dado momento ele cai e apoia-se nas pernas.

O “milagre” foi o suficiente para uma enxurrada de acusações de que o moço seria um farsante, de que não seria um deficiente físico, de que não deveria disputar paraolimpíadas, de que estaria se aproveitando para comover as pessoas, etc, etc, etc.

Então a tia pediu ajuda do site wikipedia para explicar:

Deficiência física ou deficiência motora é uma limitação do funcionamento físico-motor de um ser humano ou animal . Normalmente, os problemas ocorrem no cérebro ou sistema locomotor, levando a um mau funcionamento ou paralisia dos membros inferiores e/ou superiores. 

A deficiência física refere-se ao comprometimento do aparelho locomotor que compreende o sistema ósteo-articular, o sistema muscular e o sistema nervoso. As doenças ou lesões que afetam quaisquer desses sistemas, isoladamente ou em conjunto, podem produzir quadros de limitações físicas de grau e gravidade variáveis, segundo o(s) segmento(s) corporais afetados e o tipo de lesão ocorrida. 

Ou seja, uma pessoa não tem que necessariamente ter paralisia para ser considerada deficiente físico, nem para necessitar de uma cadeira de rodas.

O moço em questão é capaz de andar, não é paraplégico, ele tem “Geno Valgo”, a doença do joelho em “X”. As pernas não ficam alinhadas e os joelhos se aproximam, deixando os pés afastados, o que dificulta o caminhar. Mesmo assim, ele possui força nas pernas. No dia a dia ele nem usa cadeira de rodas, mas no esporte que ele pratica, o basquete, como vários atletas tem níveis de limitação diferentes, todos usam a cadeira para ficarem iguais.

Da mesma forma, o futebol para cegos obriga todos os atletas a usarem uma venda nos olhos porque muitos não são completamente cegos, possuem visão muito baixa ou apenas distinguem a luminosidade, então a venda os deixa em condições de igualdade.

Por isso, não existe nenhuma farsa com o moço que caiu da cadeira de rodas e se apoiou com suas próprias pernas. Ninguém está enganando ninguém. Ele apenas tornou-se mais uma vítima da nossa sociedade burra que se acha no direito de julgar todo mundo e não é capaz de informar-se primeiro, muito menos de cuidar do seu próprio rabo. A velha e bíblica mania que o povo tem de se achar os defensores da moral e apedrejar qualquer um que não se encaixe nas suas regras.

Nós, os esclerosados, passamos diariamente por esses julgamentos. Temos diversos níveis de limitações motoras e não raro necessitamos de apoio para andar. No meu caso específico, não uso apoio, mas por causa da fadiga não caminho grandes distâncias sem várias pausas para descanso e não consigo permanecer em pé, parada, por muito tempo. Isso faz com que eu pareça sadia e “normal” aos olhos de quem me vê, mas na verdade necessito fazer uso de benefícios como filas e lugares preferenciais. E eu tenho sempre que ficar me explicando ou enfrentando cara feia de quem me condena sem saber das minhas necessidades.

Minha sogra, uma senhora de 89 anos, resumiu essa questão esses dias. Ela caiu e trincou levemente 3 costelas. Nada grave, mas absurdamente doloroso. Ela é muito ativa e independente então foi muito difícil para ela aceitar ajuda até mesmo para se vestir. Além da dor, foi amplamente aconselhada a não fazer esforço, pois na idade dela uma fratura simples pode virar um problemão. E ela não se conformava com o fato de estar sadia, sentir fome e sono normalmente e não conseguir fazer nada. Então ela virou-se pra mim e disse, com seu jeitinho ogro de ser: “Agora eu te entendo minha filha, todo mundo te vê bem gorda, bem corada e acham que tu faz corpo mole, mas não sabem das dores que tu sente.”

Enfim, com a sutileza e delicadeza de um elefante numa loja de louças ela finalmente me compreendeu e deu valor às minhas queixas. Infelizmente, a maioria das pessoas só entende quando passa por situações que também as limitam, não sentem empatia nenhuma, preferem ser juízes e carrascos dos outros, sem o menor direito a defesa.

Voltando ao moço da tocha, ele se chama João Paulo Nascimento, tem 25 anos e investiu no esporte desde a adolescência. É um dos atletas convocados para as Paraolimpíadas 2016 no Rio de Janeiro.  Ao final do texto, veja o vídeo que ele fez explicando a razão do tombo.

Que esse episódio sirva para informar as pessoas. Chega de sermos campeões de ignorância, preconceito e desrespeito. Que nessas olimpíadas e também nas paraolimpíadas que serão disputadas em nosso país neste ano, nossos atletas possam ganhar muitas medalhas por seus feitos no esporte e nos encher de orgulho.

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