Esclerose Múltipla como esporte radical

Há uma cena, dessas que não sei muito bem como começa ou termina, sem início ou final, em que só há uma imagem do transcorrer de um fato. É como se não houvesse nada antes ou depois. Um episódio sem continuidade ou uma intervenção de um personagem que entra e sai de sua vida. Nada significa naquele momento, mas fica martelando na mente como ondas que ressoam na água como uma pedra que abala a aparente calma de um lago, mas emergem tempos depois como um monstro repousado no fundo da lagoa.  Afinal, como diz Shakespeare em Macbeth, não é isso a nossa existência?

“A vida nada mais é do que uma sombra, um pobre ator que se pavoneia no palco, e então não é mais ouvido. É uma estória contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada”. 

Enfim, feitas as devidas introduções, vamos aos fatos. Lembro-me de uma tarde de calor, durante uma aula de Educação Física em que eu e os outros colegas de classe estávamos sentados próximos à escada em frente às quadras. Estava no SENAI, era um desses adolescentes com poucas preocupações e que ainda nem sabia o que significava e viria a significar as palavras “esclerose múltipla” na minha vida. Vestidos com o uniforme requerido pela disciplina, esperávamos o professor sentados à escada.

Aí começa o “borrão” das imagens e já não sei descrever com lógica o episódio. A questão é que o professor havia faltado e o diretor (ou coordenador) da instituição nos tinha ido avisar da ausência. O aviso se transformou em uma longa conversa. Dessas que visam inculcar algum juízo à cabeça dos mais jovens ou que estavam recheadas com “lições de moral” e que se iniciavam com frases do tipo “na minha época…”. Não sei bem como o diálogo chegou a esse ponto. Talvez, com a confirmada ausência do professor, já não estivesse mais prestando tanta atenção àqueles ensinamentos.

No entanto, fui novamente atraído quando ouvi uma frase que me pareceu disforme ao conteúdo moralizante sobre o qual acreditava ser o diálogo. Talvez nunca tenha sido o caso e devido ao meu visível desinteresse tenha criado aquela imagem unicamente na minha cabeça. A questão é que ouvi daquela figura que me parecia representar a presença da maturidade e da autoridade a seguinte sentença: “Hoje, o pessoal mais jovem anda de skate ou faz rapel e chama isso de esporte radical. Quando éramos mais jovens, eu e o meu primo comprávamos carros no ferro velho para brincar de capotagem. Isso sim era radical! Capotar um carro com a gente dentro”.

À parte da conversa, talvez essa seja uma história sem interesse. Mesmo para mim, aquilo só chamou atenção devido ao fato de não esperar aquelas palavras daquela pessoa em especial. Mesmo assim, me lembrei dela há alguns anos. Em uma mesa de bar, alguns amigos contavam sobre as aventuras e desventuras pelas quais haviam passado em uma trilha. Por brincadeira, soltei aquele: “Poxa, nem me chamaram”. Ainda não usava bengala ou cadeira de rodas, mas já andava cambaleando e com dificuldade. Certamente minha afirmação gerou um desconforto que pairou entre o “visivelmente não dá” ao “será que deveríamos ter convidado por educação”?

Percebi o constrangimento que aquela situação havia gerado e logo tratei de desfazer o mal entendido: “é brincadeira! Não consigo mais fazer trilha”. Mas, de qualquer forma, não perdi a oportunidade de recuperar, adaptando ao meu gosto, aquela frase que me pareceu tão estranha na boca do diretor: “vocês acham que andar de skate, fazer trilha etc. é esporte radical? Radical mesmo é ter Esclerose Múltipla”.

Apesar dos risos e concordâncias que aquela afirmação gerou, desde então passei a pensar com mais atenção sobre a questão. É impressionante a quantidade de coisas que fazemos e que dão uma certa radicalidade mesmo às ações mais simples. Só quem convive diariamente com a EM sabe o quão difícil é levar um copo sem derramar o líquido pelo chão. Ou, por exemplo, ter que desviar de coisas jogadas no caminho. Lembro-me que quando morava em uma república estudantil, frequentemente, tinha que desviar das garrafas de cervejas espalhadas pela casa. Não era fácil.

Muitas vezes, para nós esclerosados, como diz uma música dos Los Hermanos, “sair de casa já é se aventurar”. Brinco que meu passo cambaleante é um estilo diferente do gingado de capoeira. O prá frente e prá trás vacilante é resignificado como habilidade de luta. Colocar um chinelo de pé pode ser um desafio. Trocar a roupa pode ganhar as cores de um drama ou de um trabalho impossível.  Tudo precisa ser muito bem pensado, desde como fazer para descer uma escada ou aonde se apoiar para ir ao banheiro.

Não cabe citar indeterminados exemplos de quanto nossa vida pode se transformar em uma aventura. Cada um sabe o doce e o amargo de ser o que se é e o de viver experiências únicas. Qualquer tentativa de catalogação seria um esforço inútil, cada pessoa poderia descrever situações melhores e mais interessantes pelas quais passaram. É no processo, no fazer, que tarefas simples ganham as cores de um trabalho arriscado. Podemos até fugir dos riscos, evitando aqueles que aparecem no caminho, mas dificilmente conseguiremos nos afastar da necessidade de reconhecer que nossas ações são eminentemente radicais.

Podemos mudar todos os móveis da casa ou nos enrolar em plástico bolha, a fim de evitar quedas e machucados. Não adianta! Devemos fazer nossa parte e tudo o que está ao nosso alcance, sem dúvida, mas, em muitas ocasiões, não custa agradecer a presença e o trabalho do nosso “anjo da guarda”. Seja por sorte ou por intervenção divina às vezes escapamos, mesmo que com olhos roxos e galos na testa (e esses são exemplos reais no meu caso). Por isso afirmo: ter EM deveria ser considerado esporte radical.