Conteúdo: equipe AME
Em resumo: surto é o aparecimento de um sintoma novo, ou a piora de um sintoma antigo, que dura mais de 24 horas, sem febre ou infecção, e acontece pelo menos 30 dias depois do surto anterior. Se você acha que está em surto, avise o seu neurologista. Nem todo surto precisa de remédio.
Sentir um sintoma novo, ou perceber que um sintoma antigo voltou, pode trazer muita insegurança. "Será que é um surto?", "O que eu faço agora?". Essas são dúvidas muito comuns entre pessoas com esclerose múltipla (EM) e entre quem convive com elas. Preparamos este guia para ajudar a entender o que é um surto e como agir.
Vamos começar pelo principal: surto, também chamado de recaída ou crise, é quando surge um sintoma novo ou um sintoma antigo piora. Segundo o Ministério da Saúde, para ser considerado surto, esse sintoma precisa:
- durar mais de 24 horas;
- aparecer sem febre, infecção ou outra causa que explique a piora;
- surgir depois de um período estável de pelo menos 30 dias desde o surto anterior.
Por trás do surto, existe uma inflamação nova no sistema nervoso. Se você acha que está em surto, o ideal é entrar em contato com o seu neurologista ou com o serviço que acompanha você. Só a equipe de saúde pode confirmar se é um surto e orientar o que fazer.
Como o surto aparece?
O surto costuma se desenvolver ao longo de horas ou dias. Ele pode ser leve ou mais intenso, e varia muito de pessoa para pessoa. Alguns sintomas comuns são:
- Alterações na visão: visão dupla, embaçada ou perda de visão em um olho.
- Fraqueza: em braços ou pernas, dificultando tarefas simples.
- Perda de equilíbrio: sensação de instabilidade ao andar ou ficar em pé.
- Formigamento ou dormência: em alguma parte do corpo.
- Mudanças no controle da urina: vontade urgente de urinar, dificuldade para segurar ou para esvaziar a bexiga.
Os sintomas podem aparecer sozinhos ou juntos.
O que é pseudossurto?
Às vezes, sintomas antigos pioram por um tempo curto, mas sem que haja uma inflamação nova. Isso é chamado de pseudossurto, ou falso surto.
Ele pode acontecer por causa de:
- calor;
- febre;
- infecção, como uma infecção urinária;
- estresse;
- cansaço ou noites mal dormidas.
Quando a causa passa, os sintomas tendem a voltar ao que eram antes. Tratar a causa, por exemplo uma infecção, costuma ser suficiente.
O que é o fenômeno de Uhthoff?
É um tipo de piora temporária dos sintomas que acontece quando a temperatura do corpo aumenta. Pode aparecer, por exemplo, depois de um banho quente, de uma atividade física intensa ou em dias de muito calor. Quando o corpo esfria, os sintomas costumam melhorar. Ele não é um surto e não causa novas lesões.
Como saber se é surto ou pseudossurto?
Nem sempre é fácil perceber a diferença sozinha ou sozinho. Por isso, é importante avisar o neurologista sempre que notar uma mudança nos sintomas. Ele vai avaliar o que está acontecendo e, se precisar, pedir exames, como exame de urina ou ressonância.
O que fazer se eu achar que estou em surto?
Algumas atitudes podem ajudar a equipe de saúde a entender o que está acontecendo:
1. Anote quando os sintomas começaram, como eles estão e se estão mudando. 2. Observe se você tem febre ou sinais de infecção, como ardor ao urinar. 3. Entre em contato com o seu neurologista ou com o serviço que acompanha você o quanto antes. 4. Não interrompa o seu tratamento de uso contínuo por conta própria, a menos que a equipe de saúde oriente.
Se um sintoma surgir de repente ou for muito forte, como uma perda de visão ou uma fraqueza que impede de andar, procure atendimento logo.
Conhecer o próprio corpo e observar como ele reage às atividades do dia a dia ajuda a perceber mais cedo quando algo muda.
Como o surto é cuidado?
Nem todo surto precisa de medicação. Às vezes, quando o surto é leve, o neurologista pode acompanhar a recuperação sem remédios.
Quando há necessidade, o mais comum é a pulsoterapia: doses altas de corticoide (metilprednisolona), aplicadas na veia por 3 a 5 dias. É o tratamento previsto no PCDT do SUS. Em alguns casos, o médico pode indicar o corticoide em comprimidos, em dose alta. O corticoide reduz a inflamação e pode encurtar o surto e acelerar a recuperação, mas não muda a evolução da EM a longo prazo.
Para surtos graves que não melhoram com o corticoide, existe a plasmaférese, um procedimento que filtra o sangue para retirar substâncias ligadas à inflamação.
Um surto também pode ser um sinal de que o tratamento de uso contínuo precisa ser revisto. Converse sobre isso com o seu neurologista. A decisão sobre o que fazer em cada surto é da pessoa, junto com a sua equipe de saúde. Tratamento
E depois do surto?
Muitas pessoas se recuperam bem depois de um surto. A recuperação pode levar semanas ou meses. Em alguns casos, algum sintoma pode continuar por mais tempo. A reabilitação, com fisioterapia, terapia ocupacional ou fonoaudiologia, pode ajudar nessa fase.
Depois de um surto, é comum sentir cansaço e também medo de que ele volte. Falar sobre isso com a equipe de saúde, com pessoas de confiança ou com quem também convive com a EM pode ajudar.
Para familiares e pessoas próximas
Durante um surto, a pessoa pode precisar de mais descanso e de ajuda com tarefas do dia a dia. Pergunte do que ela precisa, em vez de decidir por ela. Ajudar a anotar os sintomas e acompanhar nas consultas também faz diferença.
Para quem já convive com a esclerose múltipla
Se você já passou por surtos, sabe como é importante reconhecer os sinais. Compartilhar o que aprendeu nos grupos da AME pode ajudar quem está vivendo isso pela primeira vez.
Fontes: Ministério da Saúde — PCDT de Esclerose Múltipla (2024): definição de surto e tratamento · MSIF — Tratamentos e terapias da EM · Queiroz ALG et al. Plasmaférese nas doenças desmielinizantes. Arq Neuropsiquiatr, 2023 · MSIF — Cuidados durante o surto
Veja também: O que é a esclerose múltipla?