Não à autopiedade

Por Jéssica Thome

 

Enquanto não provem o contrário, vivemos num mundo de probabilidades. Muitas explicações místicas e espirituais existem sobre as coisas serem como são, mas, ainda não surgiu uma explicação exata e comprovada experimentalmente do porque alguns nascem pobres ou ricos, saudáveis ou doentes, entre outras possibilidades… Somos como somos, produtos de pura aleatoriedade. Deixando o lado espiritual de lado, vamos focar em probabilidades.

Definitivamente, o mundo não parece justo. Não partimos todos das mesmas condições. Na grande escada da vida, uns começam em degraus mais altos, outros em degraus mais baixos. Isso, é claro, traz revolta em alguns momentos. Logo que nos damos conta disso, ficamos tomados por raiva e tristeza. No entanto, esses sentimentos em nada nos ajudam. Apenas deixam a subida mais árdua.

Não sou fã da meritocracia, acredito que todos, absolutamente todos, deveríamos partir com as mesmas oportunidades de estudo e viver sem preconceitos. Agora, sem tornar este texto político, vamos abordar o ponto que mais nos interessa: porque alguns são doentes e os outros são plenamente saudáveis?

Ora, pergunta de difícil resposta. E claro, como dito antes, produto de pura aleatoriedade. Sim, tem a ver com genética, com condições ambientais, para grande parte das doenças existem causas definidas, mas, voltando à questão mais filosófica: porque eu, Jéssica, ou você, nasceu num corpo com pré-disposição a desenvolver esclerose múltipla? Porque não nascemos em outra família ou porque não tivemos mais sorte no desenvolvimento do nosso corpo? Muitos de nós não temos familiares que também tem EM. Lembrando que nossa doença ainda não tem explicação clara de sua origem (o que deixam as respostas ainda mais difíceis!). Indícios falam de possível pré-disposição genética e possíveis causas ambientais.

Voltamos à probabilidade. Para nascer homem ou mulher, existe uma probabilidade de 50% para cada possibilidade. E para desenvolver esclerose múltipla, também existe um valor de probabilidade (que honestamente não faço ideia de quanto seja). E se estendermos nossa análise, se pensarmos qual a probabilidade de ser a Jéssica portadora de esclerose múltipla, nascida na minha família específica, moradora de Novo Hamburgo e brasileira, a probabilidade fica ainda menor. Ou seja, somos todos únicos. Poeiras de estrelas, como já dizia Carl Sagan, mas humanamente complexos e com infinitas possibilidades de vida.

Porque toda essa conversa sobre probabilidades, poeira de estrelas, complexidade? Para mostrar o quanto vivemos sem controle. Achamos que temos controle sobre as coisas, mas no fim das contas, temos pouco controle sobre a vida. Só o fato de existirmos e de como nascemos mostra a nossa falta de controle. Claro, eu posso ter controle sobre o que vou tomar no café da manhã no dia seguinte, mas não tenho controle sobre tudo que pode acontecer. Probabilidades!!!!

Aceitando que somos apenas um produto de probabilidades, aceitamos melhor o diagnóstico. Mudamos o foco do pensamento, saímos da autopiedade. Daquele pensamento vitimista de “somos coitados”. Passamos de “somos coitados e tudo está perdido” para “infelizmente sou portadora de uma doença, mas devo conviver com ela da melhor maneira possível e aproveitar a vida”. A aceitação é tudo.

Devemos dizer não à autopiedade. Temos que ter coragem! Acordar a cada dia de cabeça erguida e fazer dos limões uma limonada. Pegar as condições que temos e extrair delas o melhor possível. Ter uma doença como a esclerose múltipla nos traz o insight de como é precioso cada minuto que temos e que devemos valorizar o tempo.

Valorizar nosso tempo implica em viver com mais qualidade, não desperdiçando nosso tempo com coisas inúteis e que não nos agregam em nada. Desde que fui diagnosticada, é incrível como li mais livros, desenhei mais, vi mais filmes, convivi mais com as pessoas que amo… Isso teria acontecido se eu ficasse numa nuvem de autopiedade?

No início do diagnóstico, vivemos o luto, é inevitável. No entanto, como diz a expressão, devemos ir do luto a luta. Seguir em frente é um ato de amor próprio. Se lamentar infinitamente é um ato de desperdício de vida e energia. O amor próprio nos fará cuidar mais da nossa alimentação, das atividades físicas, a fazer o tratamento adequadamente. Ou seja, ter amor próprio fará a doença progredir mais devagar. A autopiedade só irá acelerar o agravamento da doença e, talvez, a trazer mais surtos!

Somos doentes por uma simples questão de probabilidade. Cabe a nós não deixar que uma doença nos tire a vontade de viver e fazer as coisas de acordo com nossas possibilidades físicas. Felizmente, somos adaptáveis. Podemos nos moldar conforme as condições que vivemos. E a partir disso, reencontrar sim a felicidade. Se você não consegue fazer isso sozinho, não pense duas vezes e peça ajuda de seus amigos, familiares e faça terapia com psicólogo. E claro, procure também um psiquiatra. Os remédios psiquiátricos são de grande ajuda!

Autopiedade não é a mesma coisa que amor próprio. O amor próprio nos impulsiona sempre para frente enquanto a autopiedade nos faz andar para trás. Na estrada da vida, andar para trás ou ficar estagnado nos faz perder belas paisagens, não conhecer pessoas que seriam essenciais e não viver novas experiências. Num mundo de infinitas possibilidades, não se permitir a seguir em frente e se dispor a viver é uma perda incontável! Em um universo de bilhões e bilhões de planetas, nascemos aqui por algum motivo e seria uma tristeza não aproveitar a beleza da vida.