EM e Paternidade (Parte VII) - Fora da igualdade não há salvação. Ou o que estamos dispostos a perder.

31 . Ago . 2017   /  Vida social - família e amigos

Nem guerras, nem doenças, nem catástrofes naturais, o que mais aterrorizou homens e mulheres em toda existência da humanidade sobre a crosta terrestre foi a ideia de “igualdade”. Talvez, essas coisas nos apavorem tanto porque são incontroláveis e põe sobre a mesma régua a experiência, pouco importando, gênero, cor, idade ou classe social. Somos iguais: presos em um abrigo antibombas, abrindo um envelope com o resultado de um exame ou quando a água invade nossa casa.

Somos iguais, o resto todo é perfumaria. Tudo aquilo que lhe define e distingue dos outros é inútil: títulos, posses, roupas, cargos etc. São quesitos externos, dados por pessoas externas. E aqueles que assim definem estão presos nessa hierarquia. Afinal, a única forma de redenção que encontram é na manutenção da desigualdade. Na certeza que sua força se encontra na permanência da polaridade opressor-oprimido. E, por isso,  justifica e se esforça para a continuidade da opressão.

Não estou falando a partir daquela noção jurídica de que “todos somos iguais perante a lei”, mera fantasia. Nela bastaria você seguir racionalmente as regras e normas que lhe eram oferecidas, desde que não se perguntassem quem as fez e com quais intenções. Sob esses princípios, defenderiam seus interesses particulares, privados, pouco importando o bem público e comum. Desde que não perdessem, tudo bem. Dane-se o público.

Essa incapacidade de compadecimento à dor alheia causa comportamentos “teoricamente” engajados, mas calamitosos na prática. Algumas pessoas se apegam sob um discurso religioso que ao mesmo tempo em que os incentiva a ser individual e moralmente bons, lhes permitem a ser social e eticamente uma lástima (nossa bancada evangélica no congresso ou programas de TV que dizem praticar a solidariedade, não me deixam mentir). No fundo, buscam apenas benefícios privados para si e seus pares, sejam financeiros, oportunidades ou unicamente para se autopromoverem como moralmente superiores. Desde que as hierarquias, que mantêm as desigualdades sejam preservadas, se comprometem a ajudar. E isso caso se possa escolher como ajudar, o que quero e se quero dar. Permitir aos outros à autonomia é perigoso.

No entanto, o contrário também ocorre: pessoas que se dizem engajadas com uma causa pública, mas que na vida privada são incoerentes. Já vi pessoas que se autodeclaravam progressistas sendo extremamente tradicionalistas quando atingiam seus privilégios. Há pessoas empenhadas nas lutas trabalhistas, que são profundamente patriarcais na vida doméstica. Já soube de feministas que criticaram a presença de transexuais em um debate aberto por terem um pênis e não serem biologicamente mulheres. Não é uma preocupação com a libertação de todos, mas apenas de se livrar do papel dno oprimido. E nesse caso, desde que seus privilégios sejam mantidos, é possível tomar para si suavemente o papel do opressor.

É difícil assumirmos essa capa, mas, às vezes, o simples fato de existir já nos coloca nessa posição. Ao nascermos homens ou mulheres, brancos ou negros, pobres ou ricos, herdamos uma série de noções e preconceitos que orbitam sobre essas coisas. Ou ainda, podemos dizer, se temos essa ou aquela deficiência, temos uma determinada orientação sexual, vivemos com doença x ou y... Podemos até colocar certas atitudes e comportamentos (racistas, homofóbicos, machistas etc.) como uma doença ou desvio de caráter, taxá-los como absurdos, sem mesmo sequer se constranger com o fato de se aproveitar de uma estrutura completamente desigual. Uma desigualdade que é vista como natural, não uma escolha de mulheres e homens em seu presente. Uma escolha daquilo que consideravam digno de ser tido como igual.

Por que estou falando essas coisas? Francisco, desde seu nascimento, seu choro era também o choro de todas as crianças que choravam de fome e frio. O desespero que me dava era a empatia com aquele pai e mãe que não tinha dinheiro ou possibilidade para oferecer uma simples mamadeira. O mesmo se deve a EM. Se tenho a oportunidade de fazer os tratamentos, comprar os remédios, fazer as terapias, sei que muitas pessoas não têm. É um absurdo aqueles que contribuem para a destruição do SUS e negam a pertinência de fortalecer a saúde como um bem público. Meu desejo não está em garantir exclusivamente a minha segurança e meu conforto, mas que todos tenham as mesmas possibilidades de escolha.

Na arquitetura e nas discussões sobre acessibilidade empregamos a noção de Desenho Universal. Simplificadamente, seria transformar os espaços acessíveis e disponíveis a todos, independente de idade, gênero, estatura, deficiência. Talvez, seria bom adotar essa ideia pra vida, fazendo com que todos possam ter acesso a tudo, bens culturais, materiais, educacionais, de saúde etc., independente de classe social, profissão, grau de escolaridade, localidade etc. Estamos dispostos a perder um espaço em nossa escada para que construam uma rampa?

Devemos ser como São Francisco (de quem pegamos emprestado a inspiração de seu nome) e se despir de todas as pompas e privilégios. Não falo em bens, posses, cargos e títulos, mas de toda essa estrutura que faz com que continuemos dando valor a bens, posses, cargos e títulos. O dia em que os saberes de um curandeiro e de um médico forem igualmente valorizados; ou os ensinamentos de um velho analfabeto e de um intelectual; ou a comida e a moradia simples perto de uma propriedade gigantesca; aí poderemos falar em igualdade.

A questão não é reconhecer que um dos lados (médico/curandeiro) está certo, mas reconhecer o esforço de ambos de darem sentido, de formas diferentes, aos mesmos eventos. Cada qual viverá as mesmas situações de formas distintas. E a igualdade não tem que ser o final, mas o meio que se percorre para que todos cheguem a finais diferentes. Nem todos desejam obter altos salários trabalhando 15h por dia. Às vezes, se prefere a vida pacata e uma noite de sono tranquila, mesmo vivendo no limite da subsistência. No entanto, é necessário que cada um seja livre para escolher a vida que lhe convier. Sem hierarquias, sem a pretensão de indicar um jeito melhor ou pior; mas cada um lidando com os benefícios e consequências de suas próprias escolhas.

No fundo, a questão não é saber o que se vai dar, mas o que se está disposto a perder para que todos sejam iguais. Ou que tenham as mesmas possibilidades para que, se quiserem, ser diferentes. Se de alguma forma você se sente superior por causa de seu sexo, cor de pele, orientação sexual, instrução, cargo, poder financeiro etc., provavelmente você é uma daquelas pessoas que se aterrorizam com a igualdade. Um verdadeiro ato de solidariedade está na humildade de receber, não em dar. Não em levar o outro à verdade, mas em receber aquilo que cada um tem a oferecer. E, se não gostarmos do que nos oferecem, devemos nos questionar o que estamos oferecendo. O opressor não suporta vestir os sapatos do oprimido

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Sei que a imagem que ilustra o post (uma escada encostada em um muro) não é bem lá o símbolo da igualdade e da superação de obstaculos que enfrentamos, ainda mais para quem tem uma deficiência ou Esclerose Múltipla. Eu mesmo não tenho equilíbrio e nem força para utilizar uma escada. Pra mim, o muro continuaria sendo intransponível. No entanto, mesmo assim, quis utilizar a imagem para nos fazer pensar que a igualdade não é um valor universal, mas sempre contextual. Às vezes, será preciso agir de forma desigual para obter a verdadeira igualdade. 

Fonte: Jota

Tags: acessibilidade , ética , Esclerose Múltipla , escolhas , igualdade , oportunidades

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