TODO TRAUMA DEIXA UMA CICATRIZ

13 . Jun . 2017   /  Emoções

O diagnóstico de uma doença crônica, grave e imprevisível como a Esclerose Múltipla é vivenciado de forma muito individual por cada pessoa: tem gente que aceita desde logo e encara todas as dificuldades e alterações que a doença traz; já outros não conseguem conceber a nova realidade e passam a viver em verdadeiro estado de negação. Não existe forma “certa” ou “errada” de encarar o diagnóstico de uma doença crônica, e nem mesmo prazo para aceitar essa nova realidade, até porque, essa “nova realidade” pode mudar a qualquer momento, não é mesmo?

Como já escrevi em um Post do Blog EMparaLeigos (O Luto do Diagnóstico), uma doença crônica traz consigo perdas sucessivas de independência e controle, gerando para o diagnosticado a sensação de ter sido roubado em algo que tinha direito. Essa pessoa passa por um processo doloroso, que envolve sofrimento, medo, revolta, raiva, culpa, depressão, isolamento, torpor, desinteresse pelas atividades costumeiras ou excesso de atividades (fuga), podendo, inclusive, apresentar sintomas físicos e psicológicos de estresse, fadiga e falta de ar.

É por isso que, logo que uma pessoa é diagnosticada com Esclerose Múltipla, minha maior preocupação tem a ver com a forma como ela (e até mesmo seus familiares e amigos mais próximos) vai passar pelo luto, pois é certo que o diagnóstico da Esclerose Múltipla é um trauma, e todo trauma deixa uma cicatriz.

Ocorre que, um mesmo trauma pode ser encarado e vivenciado de formas diferentes entre as pessoas. Umas podem tirar lições positivas e sair fortalecidas e motivadas, enquanto outras podem se frustrar e afundar diante do mesmo acontecimento.

O significado que damos aos traumas ocorridos em nossa vida depende muito de nossos valores e crenças, que carregamos inconscientemente. E são esses valores e crenças que fazem com que nossas cicatrizes tenham um significado positivo ou negativo.

No caso da Esclerose Múltipla a situação é ainda mais complicada, pois além do diagnóstico em si, temos que lidar com a imprevisibilidade da doença, de modo que nos questionamos sobre o que já aconteceu (o diagnóstico), mas vivemos apreensivos com o que ainda poderá acontecer (novos surtos e a progressão da doença), e essa falta de estado de prensença não faz bem. Quanto mais uma pessoa vive no passado, mais tendência à depressão ela terá; em contrapartida, quanto mais viver no futuro, mais ansiosa tende a ser.

É importante saber, no entanto, que a forma como lidamos as situações não precisa ser definitiva, é possível encarar de forma mais simples fatos que, antes, pareciam tão complicados. Em suma, é possível enxergar o copo meio cheio, quando antes ele parecia meio vazio.

O significado de todo acontecimento depende do filtro pelo qual o vemos. Quando mudamos o filtro, mudamos o significado e, então, podemos aprender a pensar e sentir de outro modo sobre aquele determinado fato, ter novos pontos de vista e levar outros fatores em consideração. Isso tem um nome: ressignificar. Na linguagem da psicologia, ressignificar faz parte da habilidade que TODOS possuímos de atribuir um significado positivo e satisfatório a um acontecimento que muito nos incomoda, passando a encará-lo com equilíbrio emocional, sem apegos a valores e crenças enraizados, sem pensar demais no passado ou no futuro, dando mais valor ao tempo presente.

O exercício é simples. Pense o seguinte: sim, eu fui diagnosticado(a) com uma doença crônica, imprevisível e grave (esse fato não vai mudar), mas o que esse trauma pode trazer de positivo para minha vida? Que tal o alívio por ter dado “nome aos bois”? Será que esse diagnóstico não pode te incentivar a alterar seu estilo de vida para melhor? E a gratidão aos familiares e amigos que te apoiam nesse momento, não é maior que o medo que você está sentindo?

Eu posso fazer uma lista enorme do que a Esclerose Múltipla alterou positivamente na minha vida: hoje dou mais valor às pessoas ao meu redor, e demonstro isso a elas; me parabenizo e comemoro cada pequena conquista; cuido muito mais do meu corpo e da minha mente, me alimentando melhor e praticando exercícios; planejo melhor meu dia, sem frustrações quando 24 horas não são suficientes para fazer tudo que gostaria de fazer; entre inúmeras outras coisas (algumas delas inclusive já foram inspirações para Posts aqui no Blog da AME, veja aqui).

O mais importante ao ressignificar é entender que você não deve se apegar a sentimentos e pensamentos enraizados. Você deve se deixar acreditar, de fato, que nem todo trauma deixa uma cicatriz horrenda. Muitas de nossas cicatrizes nos fazem melhores e mais fortes, e o fato de elas existirem nos faz lembrar, diariamente, que evoluímos. 

Fonte: THEML, Geronimo. Produtividade para quem quer tempo: aprenda a produzir mais sem ter que trabalhar mais. São Paulo: Editora Gente, 2016.

Tags: luto , sentimento , trauma

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