MINHA VIDA COM ESCLEROSE MÚLTIPLA, UM FILME.

07 . Fev . 2017   /  Emoções
Era segunda feira duas horas da manhã, estávamos eu e o Baby no hotel em São Paulo. Ele dormia como uma rocha, eu tentava pegar no sono, porém, a ansiedade de que o despertador tocasse logo, não me deixava nem fechar os olhos.
Fui convocada para uma perícia de aposentadoria pela primeira vez, não fazia nem ideia do que me esperava.
Mesmo sem fechar os olhos direito, sabe quando você cochila e acorda o tempo todo, achando que está perdendo hora? Assim foi a minha madrugada, finalmente tocou o despertador, eu pulei da cama e começei a me trocar, a ansiedade me consomia e pensava " Ah vamos logo com esse nervoso, quero ver como é! " Tomamos um café da manhã reforçado, pois pensei que a coisa lá podia ser demorada e seguimos rumo ao DPME.
Lá chegando, notei que o local estava entupido de gente, para me prevenir, coloquei minha máscara. Reparei que no Departamento de Perícias Médicas do Estado de São Paulo, uma pessoa usando máscara, chama mais atenção, que uma melancia na cabeça, todos ficaram olhando para mim, e acompanhando meus passos.
Subi a rampa de acesso ao segundo andar, onde ficam os peritos e logo percebi que ao mesmo tempo estava acontecendo as perícias de ingresso, ou seja, professores que passaram no concurso, precisam provar que estão aptos a trabalhar.
Sentada ali na cadeira de espera, fui informada do número da sala da junta médica para aposentadoria, me posicionei bem à frente da porta e la aguardei.
De repente, começou a rodar um filme em minha mente, quando era eu que estava ingressando, o ano era 2006 e eu estava aqui, em São Paulo, com o meu pai, escolhendo a cidade mais próxima onde eu pudesse trabalhar.
Já estava vivendo um momento muito incerto, estava muito feliz porque enfim, eu seria professora efetiva, teria minhas aulas e meus horários, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa não estava indo bem, mas devia ser apenas o estresse da correria de dar aulas em três escolas diferentes, em cidades diferentes e periodos diferentes!
2006 terminou e 2007 começou com a alegria da minha convocação para escolher as aulas e escolas. Junto dessa alegria, estava a preocupação de como seria esse ano? Assim foi, a atribuição e consegui a maioria das minhas aulas, em História e Sociologia, contudo em três escolas diferentes! Que vou contar um segredo, naquela em que tinha mais aulas virou a minha sede, e é até hoje. Cheguei naquela escola provocando o maior bafafá. Eu sou formada em Ciências Sociais e habilitada em História e Geografia para ensino fundamental II, entretanto precisei entrar com uma liminar para tomar posse com a Sociais, pois quando passei no concurso não tinha o curso de História completo. Ou seja, a diretora, coordenadora e professores devem ter me odiado, chegar na "escola deles" e tirar os professores que já estavam acostumados e familiarizados. No entanto, me senti muito mal com toda aquela situação, mas que era preciso acontecer, eu não tinha culpa.
Bem, mas foi uma época muito difícil na minha vida, como costumo contar a vocês queridos, junto à efetivação do meu cargo PEB II veio um diagnóstico de nome horroroso, esclerose múltipla, no dia 12 fazemos aniversário, uma década que ela foi descoberta em mim, e comecei o ano letivo perguntando, como poderia sair afastada ? E fiquei sabendo, que só era constatado que eu havia assumido o cargo, após um dia que eu conseguisse dar as minhas aulas, então poderia ser substituída por outro professor, e foi o que fiz, em pleno uma neurite óptica nos dois olhos, que só conseguia abrir os olhos usando óculos escuros e mesmo assim, sem enxergar quase nada, pedia ajuda para os alunos fazerem a chamada. E para me acompanhar até Piracicaba nessa aventura, minha grande amiga Viviane foi comigo. Grande aventura mesmo, me lembro que havia uma escola recém inaugurada que ficava muito longe e que para chegar até ela, nós tínhamos que atravessar o canavial e Indiana Jones, fica no chinelo com a minha super amiga no volante, no meio do mato, num calor de milhares graus, eu que nem conhecia a EM, sentia de tudo, formigava ali, dormia aqui, não sentia minhas pernas direito, tudo rodava, dava náusea, mas eu tinha que dar um dia de aula, na terra da pamonha! Graças a essa super amiga, nós conseguimos e eu pude ficar meses afastada fazendo a pulso com ciclofosfamida! Minha visão demorou muito a voltar, porque quando estava voltando tive novamente, bem na espera do medicamento que eu iria iniciar.
Porque na época tive uma grande sorte de iniciar logo, recebi uma doação da Heloisa querida atendente da farmácia de Alto Custo, que me acompanhou por todos esses anos e agora espero que esteja desfrutando de sua tão merecida aposentadoria, só que na época, a demora com a papelada do processo no SUS era de pelo menos dois meses, então por um mês (28 ampolas) eu fiquei protegida, porém, depois tive outro surto no mesmo olho.
Bom, voltando nos dias atuais, eu continuava sentada na cadeira e quando a porta do consultório se abriu, vi que estava escrito : " Junta Médica para aposentadoria", havia uma senhora sentada no meio de uma roda de três médicos, ela estava sendo examinada e aquela porta não parava fechada, cada hora entrava um médico diferente e eu espiando e ficando tensa, mandei uma mensagem pro Baby que estava no carro: "Baby a coisa aqui tá esquisita, já entraram dois médicos diferentes pra examinar a senhora."
E ele : " Fica calma "
Calma eu estava, eu queria que acabasse logo tudo aquilo.
O filme até parou de rodar, quando notei estava com os olhos lacrimejados e triste pensando : Por que comigo? Eu que sou tão nova? Será que vão me aposentar? E na hora me lembrei da peça do nosso amigo Nando Se fosse fácil não teria graça e mudei o pensamento.
O filme voltou a rodar com tantas lembranças desses dias que foram tão difíceis, mas que depois valeu muito a pena. Consegui tudo que planejei, demorou, mas posso dizer que fiz tudo do jeito que quis. Me readaptei, trabalhei por dois anos consecutivos na secretaria de educação, depois continuei entre trancos e barrancos, mas continuei, até a hora que minha vida falou mais alto, trabalhar me deixava muito cansada, fraca, zonza, com náuseas, então me mantive esse último ano afastada e meus médicos, indicando a aposentadoria, até que cheguei nesse momento.
Fabiana Dal Ri Barbosa. A médica chamou, então lá fui eu.
Uma sala com o mesmo perito neurologista, que me garantiu à readaptação definitiva e mais duas médicas peritas, o Dr anotou todo o meu relato e na hora do exame, procurou ver se minhas queixas e as palavras da Dra Roberta no relatório eram provadas no exame clínico.
E pude notar, que sim, todas as nossas queixas por mais subjetivas que sejam, o perito tem um meio de avaliar. E foi então que notou falta de tônus, perda de força muscular, cansaço fácil, ataxia na marcha, reflexos involuntários nas pernas..... Acho que foi mais ou menos o que ouvi, ele relatar para as outras duas peritas.
 
Enfim, depois de 15 dias, outro filme começou a rodar, saiu a minha aposentadoria.
Agora pretendo levar a vida mais leve fazendo o que me faz bem e ocupando a mente com o que me da prazer e forças para enfrentar a vida com esclerose multipla.
 
Agora vamos esperar pelas continuação desse filme.
 
Mil Beijinhos e até o proximo!!!
 
Fabi
Fonte: Fabi Dal Ri Barbosa | Redação Blog AME

Tags: aposentadoria , aposentadoria por invalides , DPME , esclerose multipla , pericia medica , professor do estado de são paulo , servidor estado de são paulo

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