Me tornando MULHER com EM

04 . Ago . 2016   /  Ativismo e direitos

Oi queridos e queridas, tudo bem com vocês?

Por aqui tudo ótimo. Francisco cresce saudável e feliz aqui dentro de mim. Agora já sou Doutora em Educação e eterna aprendiz nas coisas da vida. E uma das coisas que aprendo, diariamente, a ser, é mulher. Porque, assim como a querida Simone (sim, a De Beuavoir), eu acredito que a gente não nasce mulher, mas se torna.

Sim, eu sei que agosto é o mês de conscientização da EM no Brasil. Mas em 2016 é também o mês que comemoramos os 10 anos da Lei Maria da Penha. Uma importante lei para reconhecer e punir a violência de gênero.

Se você que está lendo esse texto está bufando: “lá vem aquelas coisas de feminismo”. Saiba que vem mesmo! Porque da mesma forma que você está achando o “mundo mais chato” e revira os olhos pro feminismo. Eu tô de saco cheio e reviro os olhos pra comentário e piada machista.

E aí, você pode também se perguntar o que violência de gênero e esclerose múltipla tem a ver. E eu te respondo: tudo!

Primeiro porque, para cada homem com EM, nós temos três mulheres. Três mulheres jovens, ativas, mães de família, trabalhadoras, batalhadoras que acabam tendo o diagnóstico e precisam adaptar toda a sua vida a sua nova condição: a de pessoa com doença crônica, incurável, que exige tratamento contínuo, com sintomas diários oscilantes, incapacitante em muitas circunstâncias e que ocasiona deficiências visíveis e invisíveis.

Tem tudo a ver porque a maioria de nós, mulheres com EM, precisam lidar com a doença e com todo o resto da casa porque a maioria dos homens simplesmente acha que a casa, a comida, os filhos, é tarefa de mulher. Tem tudo a ver, porque muitas de nós, que temos o diagnóstico de EM, somos deixadas pelos nossos parceiros porque eles consideram que essa luta não é deles. Tem tudo a ver, porque muitas de nós, mesmo com dor e sem nenhum pingo de vontade de transar, fazemos sexo com nossos parceiros e parceiras porque achamos que temos essa obrigação, ou somos forçadas a acreditar nisso. Relacionamentos abusivos (eu já vivi mais que um e acho bem desnecessário na vida de qualquer serumano... veja esse vídeo e avalie se você está em um: https://www.youtube.com/watch?v=I-3ocjJTPHg) são violentos e são o primeiro passo para uma violência física. Destruir a sua alma pode ser muito pior que uma mancha roxa.

A lista podia ser mais longa. Mas esses são alguns dos desabafos que eu leio diariamente, na minha caixa de e-mails, de mulheres com EM. Situações vividas por mim também. Mulheres que nasceram com o sexo feminino e foram criadas para acreditar que existe tarefa de mulher, lugar de mulher e obrigação de mulher. Eu mesma, antes de me conscientizar mais sobre ser mulher e de saber que eu não sou obrigada a nada por ter nascido com uma vagina e um útero, acreditei em namorados que diziam que eu não encontraria ninguém que aceitasse uma mulher incompleta e doente. Acreditei em sogras que diziam que seus filhos não precisavam de uma mulher doente. Deixei de usar roupas mais femininas e me maquiar para ir trabalhar ou ir para aula porque meus chefes e professores julgavam que eu estar bonita e me sentir bonita era um convite para eles olharem para meu corpo como um objeto qualquer.

Hoje não mais. Graças a conscientização. Graças ao feminismo. Graças aos estudos de gênero. Porque, por mais que eu nunca tenha aceitado um mundo de princesas (nunca gostei mesmo...tanto que não tenho princesa preferida da Disney), nunca tenha gostado de rosa (apesar de ficar linda de rosa) e tenha aprendido desde cedo que não existe coisa de menino e menina, a organização social nos coloca em lugares que, às vezes, acabamos por nos sujeitar. Hoje não mais!

E mesmo que vocês digam: mas Bruna, eu nunca apanhei do meu companheiro. Eu só posso dizer a vocês que ser humilhada, menosprezada, ser forçada a ter um ou outro comportamento pelo simples fato de ser mulher, é sim uma violência de gênero. Eu ter ouvido, várias vezes, que eu não poderia ser mãe porque eu tenho EM e, por isso, eu não teria capacidade é violência de gênero. Mas eu não aceito mais isso. Não mais.

E nenhuma de nós deveríamos aceitar. Nenhum homem também deveria aceitar. Aliás, violência de gênero deveria ser inaceitável pela humanidade. Mas já que ainda não é. Já que homens ainda riem de piadas machistas e, pior, mulheres também, a nossa luta é grande, é longa e é necessária. Feminismo não é só pra mulher (veja aqui o texto do Jota sobre gênero também).

Acompanhe a campanha #Inclusivassfalamsemmedo nas redes sociais: https://www.youtube.com/channel/UCjAj9y7Uoye75vE21ltq3Lw

Vejam nosso vídeo sobre sexo x gênero do nosso bebê: https://www.youtube.com/watch?v=2krHh7TZsN0

Entendam melhor o feminismo antes de dizer que ele não serve pra você. Porque feminismo tem a ver com respeito à humanidade.

Até mais!

Bjs

Fonte: Bruna Rocha

Tags: , deficiência , esclerose múltipla , feminismo , gênero , mulher , violência

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