Desamparo como afirmação da vida

26 . Jul . 2016   /  

por José Isaías Venera

Alice poderia aceitar, sem resistência, um diagnóstico? “Não há dúvidas quanto ao diagnóstico”, diz acolá um representante da ciência. Mas não há dúvidas também que pouco se sabe sobre o que é a sua causa, já que não há um marcador biológico para a Esclerose Múltipla, apenas seus efeitos. Como Alice reagiria? Digo aquela que mergulha numa toca de coelho. Certamente, viraria às costas para essa grande voz como figura superegóica? Mas a vida não se resume aos personagens de literatura.

Uma forma de o sujeito se afirmar frente à onipresença do discurso médico,assim como de superar os olhares e comentários estereotipados que vêm do sendo-comum, talvez seja a de alimentar um afeto considerado triste: o desamparo. A hipótese pode parecer estapafúrdia. E não poderia causar reação diferente num primeiro momento.

Vamos contrapor o sentimento de desamparo e dois outros: a esperança e o medo. Esses dois estão relacionados com o sujeito numa relação de duração no tempo. Àquele que tem esperança, espera que as coisas podem mudar no futuro. Pode-se, no caso em questão, viver sempre em função do amanhã, na esperança de que a ciência descubra a fórmula salvacionista para os males. O problema quanto à EM é que se tem apenas os efeitos, já que a Esclerose Múltipla aparece apenas como nome para o que se desconhece, apenas se sabe de que há algo que produz determinados efeitos. A isto que permanece inexistente em forma e matéria chama-se pela abreviação: EM. No par oposto à esperança, temos o medo, essa presença sempre incomoda de que a qualquer momento o paciente de EM pode entrar em surto. A qualquer momento este passado que permanece como uma discursividade, faz com que o sujeito esteja sempre em vigíliapara evitar ou agir com rapidez caso a um novo surto.

É entre a esperança e o medo que o desamparo pode ser encarado como um afeto de afirmação da vida, mas, certamente, não se resume a vida biológica. O afeto de desamparo pode ajudar a se desvencilhar da esperança de que amanhã tudo poderá ser diferente e de se perder do medo que faz do presente um tempo aterrorizante. Desamparo, assim, é um afeto que nos distancia do amanhã e do passado, permitindo que se viva com mais intensidade o presente, já que o sujeito está desemparado da esperança e se livra do medo.

No plano social, o filósofo Vladimir Safatle segue este caminho, cuja origem está em Freud, de que “o fato que nos abre para os vínculos sociais é o desamparo”. Quanto menos esperança temos no amanhã, menos medo teremos também de que estes amanhã possa ser tirado de nós, restando o mergulho no círculo dos afetos que nos atravessam no presente.

No círculo dos afetos, não há como permanecer o mesmo, já que não paramos no tempo esperando que um milagre ou uma descoberta científica mude nosso corpo sem que nós, enquanto sujeito da linguagem, mudemos. A mudança segue o fluxo das relações. Alice é a personagens do círculo dos afetos: “Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”.

O que esperar da Alice com EM? Que ela mude tantas vezes que a inexistência da EM, já que os efeitos vêm sempre deste buraco negro que se chama Esclerose Múltipla. Façamos-lhe uma toca. 

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