Minha história com a EM

18 . Jul . 2016   /  Emoções

Muitas vezes não entendemos o porquê,  e fica muito difícil aceitar certas situações em nossas vidas. Assim eu vivi até 3 anos atrás, não conseguia entender por que pessoas muitas vezes sofriam com doenças, que pelos olhos da humanidade, não deveriam passar por isso, crianças que logo cedo são diagnosticadas com doenças crônicas, ou com algum tipo de deficiência que os limita de viver a sua vida normalmente. Pois bem, eu pensei nisso a minha vida inteira, tenho 3 irmãos, Diogo, Alexandre e Thariane a mais nova. O Alexandre foi diagnosticado com Esclerose múltipla aos 11 anos de idade, a doença evoluiu por dez anos, ele passou de uma dificuldade para caminhar aos 11 para uma invalidez aos 21, com uma traqueostomia e se alimentando por sonda gástrica, enfim ele descansou, viveu 21 anos, e foram 10 brigando contra a Esclerose Múltipla, passando mais tempo no hospital do que em casa, no dia 20 de março de 2002 ele estava com Deus sorrindo para nós. Mesmo sabendo que foi o melhor pra ele, não conseguia aceitar, queria ele do nosso lado, da maneira que fosse, perguntava a Deus por que ele precisou passar por aquilo tudo, uma criança sofrendo o que ele sofreu, não era justo, gostaria de ter trocado de lugar com ele, pelo menos um dia, pra que ele fosse feliz por 24 horas. Tolo eu era, não conseguia perceber o quanto ele foi feliz mesmo com a doença, aproveitou ao máximo tudo que Deus lhe tornara possível, se divertia ao máximo, muito mais que muitas pessoas que andavam, corriam e dançavam, ele sim era feliz. Pra ajudar, dois anos mais tarde perdi minha Vó, Vó Maria, muitos momentos foi a minha mãe, pois a minha mãe passava mais tempo cuidando do Xa em hospitais, e ela cuidando de mim e da minha irmã. Eu passei anos chorando escondido, depois de ele falecer, não consegui dar feliz aniversário pra minha mãe, pois ele nos deixou na véspera do aniversário dela, no dia do aniversário ela estava enterrando o próprio filho, foram anos difíceis, sentia um desanimo muito grande. Alguns anos depois comecei a namorar uma antiga colega de escola, Bruna, esse é o nome dela, apresentamos um ao outro as nossas famílias, é mal sabia ela que seria a escolhida pra ouvir o chororo, dali pra frente não chorei mais escondido, era a Bruna que ouvia as minhas lamentações. O tempo passou muita coisa aconteceu, deixei de sofrer tanto com a história do meu irmão, às vezes chorava lembrando dele, mas já não era tanto quanto antes, em julho de 2010 estava de férias em casa, e minha chefe na época me ligou, me esculachou por uma besteira que tinha feito, comecei a me sentir mal, o lado esquerdo do meu rosto ficou inteiro amortecido, e sentia tontura, fui no médico e o doutor falou que possivelmente era labirintite, ok, com o tempo tudo voltou ao normal, mudei de emprego, tudo caminhava bem, até que em uma manhã de janeiro de 2013, senti um desconforto na visão, em ambos olhos, a visão ficou turva, não conseguia enxergar direito, a Bruna marcou oftalmologista pra mim, mas demoraria cerca de três semanas, próximo ao dia da consulta, a visão voltou ao normal, mesmo assim fui, fiz os exames, a doutora me falou que estava tudo bem, ainda brincou que provavelmente óculos não usaria tão cedo, achei estranho, mas que bom né? Voltei a trabalhar. A rotina de trabalho era muito acelerada, era tanta coisa ao mesmo tempo. Até que no dia 3 de março de 2013 senti um formigamento nos pés, pensei, vai passar, e passou, passou pra panturrilha, depois pra coxa, pra barriga, costas e peito, durante esse tempo fiz vários exames pra tentar descobrir oq era, o médico me falou que poderia ser muitas coisas, que ele iria começar por exames mais simples, pra ir eliminando as possibilidades, falei que meu único medo era que fosse Esclerose Múltipla, pois meu irmão tinha falecido por complicações decorrentes da doença, ele disse que não quis me falar nada, mas que como eu tinha tocado no assunto, era uma possibilidade, mas que iríamos começar pelo exames mais simples e tal, raio x, exame de sangue e nada, aí ele pediu uma ressonância Magnética cervical e lombar, surpresa, tinha sinais de lesões, como era clínico geral, resolvi procurar um neurologista e mostrar os exames, falei do caso de Esclerose na família e dos sintomas, ele falou que provavelmente era Guillain Barre, mas que pra ter certeza iria solicitar uma ressonância encefálica e eletroneuromiografia. Minha mãe achou o máximo não ser Esclerose Múltipla, até entendo, mas Guillain Barre teria o risco de uma morte quase que instantânea, caso o amortecimento continuasse a subir, e não fosse tratado, poderia ter uma parada cardiorrespiratória. Fiz os dois exames, primeiro o eletro, e confesso que a ressonância não iria fazer, até por que com a eletro já conseguiria saber se era Guillain Barre, mas resolvi fazer, durante toda essa loucura de exames já tinham se passado 40 dias, peguei o resultado do Eletroneuromiografia em uma segunda-feira, e o resultado da ressonância na terça-feira, terça-feira dia 16 de abril de 2013, minha mãe abriu e leu o laudo, e a única coisa que ela falou foi, “ tá escrito aqui, que vai ser preciso fazer outros exames”, ali eu tive certeza, era Esclerose, ela já sabia, foram 10 anos lendo esses laudos, ela só não queria me falar, no outro dia apresentei os resultados pro Neurologista, e ele só me falou, e Esclerose múltipla mesmo, ele me falou por telefone na verdade, pediu pra eu ler pra ele, e me deu a notícia. Liguei pra Bruna e falei que o doutor tinha pedido pra eu ir até o consultório, que era Esclerose, fui almoçar e meia hora depois ela me ligou chorando, dizendo que ia comigo, que tinha conseguido sair do trabalho, na hora falei que ela não precisava chorar, que eu tava bem, mas o que eu não lembrava era que foram anos ouvindo as minhas histórias, foram anos enxugando as lágrimas, que eu derramava pelo meu irmão, então ela sabia do que se tratava. Fui até o consultório e fui internado no mesmo dia. Lembra do começo da história?? Da minha indagação, do por meu irmão querido precisou sofrer daquele jeito, que eu queria ter trocado de lugar com ele por apenas um dia, aí está a resposta, ele sofreu por mim,e por toda a minha família, ele não precisava passar por nada, ele não fez nada pra passar por aquilo, ele apenas assumiu a responsabilidade de ensinar pessoas menos evoluídas espiritualmente, que podemos ser felizes mesmo com todos os problemas, eu pedi um dia no lugar dele, e hj tenho o resto da minha vida, e agradeço a Deus por isso, parece idiota né? Agradecer por estar doente, mas meu irmão me ensinou, que a vida é curta e muito frágil, pra ser repleta de lamentações, não achem que não reclamo da doença, ela é chata, cansativa, e te deixa sequelas irreparáveis, muitas vezes quero ligar o botão do F.... E sair xingando, e só reclamar, mas nos momentos que lembro dele, feliz por ouvir pagode, é praticamente sambando na cadeira de rodas, ou nos momentos difíceis, pedindo uma simples colher de macarrão; quando não podia mais comer, e que vejo o quanto a minha vida é maravilhosa, e se algum dia, precisar passar pelo que ele passou, vou fazer igual ele, VOU SAMBAR NA CARA DA ESCLEROSE.

Fonte: Bruno Büchner

Tags: diagnóstico , esclerose múltipla , família

mail link