"Meu filho, não!"

11 . Mar . 2016   /  Emoções

A primeira vez que fiquei olhando meu filho, então com 11 anos, indo sozinho pra escola, vou confessar a vocês uma coisa: eu chorei. Pensei comigo: “Era preciso vir pra tão longe, meu Deus, pra ver meu filho andando sozinho a pé pra escola, sem medo de sequestro?” Não, não foi exagero. Deus sabe que eu, apesar de ser dramática, não estava exagerando naquele caso. Mas, meu choro não foi um choro convulsivo. Foi um chorinho sem barulho, eu sozinha, olhando pela janela minha coisa ainda pequena, de mochila nas costas e lancheira na mão, orgulhoso de tanta liberdade. Quatro anos depois, numa manhã de segunda-feira, estava eu novamente, como quase sempre, olhando pela janela. Ele, casaco de frio, mãos nos bolsos, saindo pra escola. Mas, nesse dia meu filho estava mancando. Não apenas mancando. Andava arrastando uma perna, o braço meio esquisito, colado no corpo. Falei de novo sozinha: “Meu Deus, isso não está certo. Tem algo errado com meu filho.” Lembro que pensei: “É neurológico”. Não sei se foi o que dizem: coração de mãe adivinha. Não sei se era porque estava tão evidente que qualquer pessoa notaria. Não sei se foi Deus falando comigo aquela hora. Mas a verdade que eu iria saber horas mais tarde é que nada, nada estava bem. E o que eu iria saber dali a dois dias doeria mais ainda.

Cerca de uma hora mais tarde recebo um telefonema da direção da escola: Heitor tinha caído no caminho, um passante o ajudou e o levou até a escola. Como estava frio demais e como ele não gostava de usar luvas, teve queimadura de segundo grau. Marcos, o pai, foi pegá-lo. A verdade é que o caminho que costumava ser feito em 10 minutos, levou mais de meia hora pra ser completado porque meu filho caia muitas vezes na neve e não conseguia se equilibrar. Trinta minutos, sem luvas, as pernas e braços estranhamente pesados, caindo e se desequilibrando, a 30 abaixo de zero… Muitas vezes, fico só tentando imaginar o que ele passou e sinto o mesmo frio na barriga que senti naquele dia. Na verdade, desde a quinta-feira da semana anterior, ele se queixava de um peso estranho no braço. Ligamos para o 811 e a enfermeira nos disse que ele deveria ter dormido de mal jeito. No domingo à noite, brincando com a irmã de 10 anos, ela conseguiu derrubá-lo na neve (o que não era normal) e os dois riram muito. Ele estava mancando um pouco. Pensamos que tinha se machucado e, por isso, estava meio sem força. Mas, ele mesmo não sabia onde teria se machucado. E, na segunda, hospital. Ficou internado para fazerem exames. Eu sabia que isso não era bom. Estava grávida de 5 meses.

Dois dias depois, o diagnóstico que, no fundo, já esperava. Vocês podem ver aqui no blog em Meu diagnótico. Esperava porque, de todas as desgraças possíveis que me apareceram na internet, essa era uma possibilidade. Quando a médica nos contou, eu estava segurando na mão de Marcos. Lembro que ele desabou ali na frente dela e das residentes. Eu segurei o rosto dele com as mãos, olhei pra ele e disse: Calma! Como se eu estivesse. Lembro também que em algum momento perguntei à médica: “Mas, como? Como ele ‘pegou’ isso? Meu filho nunca ficou doente, nunca ficou num hospital”. Lembro, de uma forma vaga, que gritei: “Meu filho, não!” E Marcos me sustentou. Sempre tinha sido assim até ali, um sustentando o outro, nas coisas que vivemos. E agora estava certo que seria mais ainda desse jeito. A dor nos uniria de uma maneira que a alegria, às vezes, não faz. Nós dois tínhamos passado por coisas que não gostaríamos de ter passado. Mas, sentir que aquela desconhecida poderia tomar o controle da vida do nosso filho… Ah… Nada se comparava a isso. Eu não vi, tão concentrada estava na minha própria dor, mas as residentes choraram, Marcos me diria depois. Elas eram novinhas e devia ser a primeira vez que estavam presentes a uma cena como essa. Ainda tive forças para perguntar à médica se ele iria morrer. Ela disse que não. Eu tinha lido já muita coisa ruim na internet. Perguntei se ele iria ficar cego, andar de cadeiras de rodas. Ela disse que com a maior parte das pessoas isso não acontecia mais, que o campo da neurologia que mais tinha avançado nos últimos 20 anos era o da escleróse múltipla, que hoje havia no mercado medicamentos eficazes que não existiam antes. Ela perguntou se queríamos dar a notícia a Heitor. Eu não podia. Marcos foi. A maneira como o menino reagiu só provava a pérola que tínhamos como nosso filho: “Papai, eu vou morrer?” “Não, meu filho.” “Isso vai afetar meu pensamento? “Também não, filho.” “Então, não tem problema, papai.” Só um pouco mais tarde, ele diria: “Logo eu que sou tão certinho…” E isso partiria o coração do pai, ali do lado dele, sentado na ponta de uma cama de hospital, talvez acariaciando os cabelos pretos da criança/adolescente. Não sei. Ou talvez tenha virando um pouco o rosto pra enxugar a lágrima que de todo jeito Heitor já teria visto. Quem sabe ele somente tenha perguntado: “Não é, meu filho?” Ou talvez não tenha dito nada. Eu não sei porque não estava lá. Foi um momento só deles. Pai e filho. Naquele momento, o pai mais criança que o filho, mais perdido. Só sei que, no outro dia quando ele foi pra casa me encontrar, me dizendo isso, chorou. E, como tantas vezes, choramos juntos, um consolando o outro, querendo que aquilo tudo fosse com a gente e não com ele, nosso filho, nosso primeiro filho.

Isso tudo se passou em dezembro de 2014 exatamente uma semana antes da data marcada para irmos ao Brasil. Passagens de avião compradas, malas começando a ser preparadas, família toda esperando uma festa de natal juntos que não tínhamos já há 5 anos. Mas, o nosso natal não seria no Brasil aquele ano. As passagens teriam que ser trocadas. Vovô, vovós, titios, titias, primos e primas não iriam chorar de alegria vendo meu barrigão nem as crianças já tão crescidas. O choro agora era outro. E o choro de alegria ficaria para seis meses depois quando, finalmente, aterrisaríamos em Recife, todas as malas extraviadas, mas com uma criança a mais no colo, uma filha de cara assustada com as trombetas que a família tinha levado para o aeroporto e um filho sem nenhuma sequela motora visível.

Nossa vida é mesmo uma caixinha de surpresas.

 

Tags: adolescente , diagóstico , esclerose múltipla , sintomas

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