Benditos os que mantém a boca fechada quando não possuem nada de bom a dizer!

08 . Fev . 2016   /  Emoções

 

Se tem uma fala que mexe com as minhas estruturas é ouvir, principalmente daqueles que tinham por obrigação saber o que a Esclerose Múltipla é capaz de fazer com o meu corpo, “ah! mas você estava tão bem até agora pouco!”. Isso me deixa, para não ser grosseira e falar um palavrão, afinal os ouvidos, ou melhor, os olhos dos leitores, merecem meu respeito, digamos que tomada por um estado de raiva agudo.

Pensem em uma segunda-feira, dia que por natureza já não é o melhor da semana, em você sai de casa bem cedo, enfrenta trânsito, buzinas e, ao meio dia, o termômetro marca 32º, mas a sensação térmica para os mortais aqui em São Paulo era de 38º e para os esclerosados que, embora pertençam à macrocategoria mortais, fazem parte da minicategoria pessoas com Esclerose Mútipla, facilmente, estava em uns 59,5º, no mínimo. Pois bem, por força das necessidades familiares, como reabastecer a geladeira, pagar contas, ir à farmácia etc etc etc, você precisa entrar e sair do seu carro (aqui abro parênteses para dizer que o carro em sua imaginação deve ser preto, cor que retém o calor como nenhuma outra) e não dá tempo para que o ar condicionado, ligado em potência máxima, faça com que a temperatura fique ao menos suportável. Você pega filas, pois mesmo as preferenciais estão gigantes; você empurra carrinho de compras; se abaixa para pegar coisas nas prateleiras do supermercado, mesmo sentindo que está no limite das suas precárias forças; você espera a atendente da farmácia mostrar todas as opções de marcas de uma medicação para uma senhora que, no fim das contas, diz que estava apenas pesquisando preços; você entra no carro, você sai do carro, você entra novamente; o suor escorre por seu rosto e seu humor vai se deteriorando junto com o seu desodorante.

Por fim, às 15h, sem almoço, no auge da fadiga, com as pernas entrando em pane, pois se recusam a dar mais um passo sequer, você chega em casa, porém isso não é o fim ainda, pois, para entrar efetivamente dentro da sua residência, você precisará encarar exatos 22 degraus de uma escada que assume uma proporção de, pelo menos, umas 27 vezes o seu tamanho original. É, devo dizer que para pernas enfraquecidas, depois de um dia de verão escaldante e uma turnê pelos principais pontos nada turísticos da sua cidade, o fenômeno da multiplicação acontece com uma facilidade exorbitante e, nesse momento, sua mente quase insane ainda lhe prega uma peça e faz lhe relampejar nas ideias que a EM podia ser capaz de multiplicar seu salário também. Mas você não ri disso, pelo contrário, você se pega ainda mais intolerante com comentários fora de hora, mesmo que sejam provenientes dos seus próprios pensamentos, e simplesmente desaba no primeiro degrau. Se senta pesadamente, como se seu peso também tivesse passado pelo multiplicador automático e, o que já não era leve de se carregar, transforma-se em mais de 1 tonelada e suas pernas estancam, seus braços estancam, sua mente estanca, seus limites (todos) estancam.

Então, nesse instante em que você só consegue visualizar sua cama a acolher seu corpo em estado de inércia quase que absoluta, alguém, repetindo, alguém, simplesmente lhe pergunta porque você está se sentindo tão mal se de manhã (aqui cabe abrir novo parêntesie para dizer que o de manhã era realmente de manhã, bem antes do sol abraçar a cidade com tanto ardor) você estava tão bem. Pois é, mesmo pasmo com essa indagação tente imaginar qual seria sua reação. Eu sei, é muito difícil mesmo levar sua criatividade a tão alto grau de exigência, então, vou lhe dar algumas opções e você marque a que melhor se adequar à sua resposta ao comentário:

  1. Você manda a pessoa ir para Portugal de navio
  2. Você se finge de surdo, afinal é melhor ouvir do que ser surdo de verdade
  3. Você diz para a pessoa, educadamente, que ela devia se informar melhor sobre a enfermidade que você possui
  4. Nenhuma das opções anteriores

Pronto, escolheu? Eu prometo divulgar o gabarito da minha resposta cordial no próximo post para que vocês não morram de curiosidade, combinado?

Ah! por fim, vale dizer que qualquer semelhança com a minha realidade ou com a de qualquer outro esclerosado é mera coincidência.

Beijos pessoas lindas!

Fonte: Bete Tezine/Blog AME

Tags: calor , esclerose múltipla , exaurimento físico , exaustão , fadiga

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