Prisão ou liberdade?

07 . Dez . 2015   /  Emoções

Depois do meu último post, fiquei pensando sobre o quanto as pessoas demoram a admitir que precisam de uma bengala e do quanto sofrem quando precisam de uma. Desde que tive o diagnóstico de EM, vejo as pessoas perguntarem se vão usar uma cadeira de rodas. E ao ler muitas matérias sobre EM, vejo a frase “ter o diagnóstico não é uma sentença de cadeira de rodas”. Ora, como se a cadeira de rodas fosse algum tipo de prisão.

Bom, primeiro, é verdade que muitos esclerosados passam uma vida toda sem precisar de nenhum dispositivo facilitador de mobilidade como bengala, muleta, cadeira de rodas, andador etc. Mas é também verdade que muitas pessoas com EM precisam usar um acessório desses e não usa por vergonha, por achar que é uma “sentença”, uma condenação, por achar que usar uma cadeira de rodas é assinar a carta de desistência da vida.

Pois é justamente o contrário. Nunca vi ninguém dizer pra alguém que está comprando um óculos que ela está desistindo de enxergar por si mesmo. Que é falta de esforço pessoal. Falta de vontade. Porque então que, se utilizamos algo que nos auxilie a caminhar, a se virar sozinho, estamos desistindo?

Por acreditarmos que a bengala é uma sentença que muitas pessoas sofrem quando precisam comprar uma. Um sofrimento doloroso e legítimo, afinal, colocamos naquele dispositivo apenas significados negativos.

Já comigo foi um pouco diferente. Quando eu estava no final da faculdade não saía mais sozinha de casa. Tinha que esperar minha mãe chegar pra fazer qualquer coisa porque meu equilíbrio não era confiável. Foi quando eu disse, em voz alta que o mundo precisava ter corrimão que percebi que minha solução era comprar uma bengala.

Mas é claro que eu não queria uma bengala qualquer. Eu queria uma bengala bonita, estilosa. E me diverti escolhendo minha bengala assim como me divirto quando vou escolher um óculos. Queria uma bengala igual a do Dr. House, do seriado, e acabei achando o site do fabricante da dita cuja. Acabei comprando uma diferente da que ele usava em cena, mas mais linda ainda (vejam a Rosinha - ela tem nome - aqui).

Fato é que usar a bengala não me parecia uma condenação. Usar a bengala era admitir que eu precisava de ajuda e ter a consciência de que minha vida seria melhor com ela. E é!

Sim, as pessoas olhavam e continuam olhando pra minha bengala com estranheza. Minha avó, que tem preconceito dela mesma usar a bengala, também acha estranho. Eu, sinceramente, dou um f***-se e saio da forma que der.

Muitas pessoas têm na imagem da cadeira de rodas o fim, a degradação master. Mas gente, vive-se em cima da cadeira de rodas e vive-se muito bem. Me incomodo muito quando as pessoas falam com aquele tom pesaroso “ah, mas tal pessoa já tá em cadeira de rodas...” como se depois da cadeira de rodas a pessoa tivesse poucos meses de vida, obrigatoriamente. Pior, quando dizem que a pessoa X vive "preso à cadeira de rodas". É muito mais libertação do que prisão. Precisar de uma cadeira de rodas, de uma bengala, uma muleta, um andador, não é o fim da vida não.

É verdade que é diferente. Não tem como não ser. Mas quando a gente não perde a vontade de viver, de sair às ruas, de fazer alguma coisa, são as cadeiras, muletas etc., que permitem que a gente possa continuar vivendo. Afinal, como eu já disse em outra ocasião, nós somos muito mais do que um par de pernas

Fonte: Bruna Rocha

Tags: bengala , cadeira de rodas , dispositivos de mobilidade , esclerose múltipla

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