Entre a burocracia e a emoção

19 . Nov . 2015   /  Ativismo e direitos

Oi gentes, tudo bem com vocês?

Por aqui tudo bem! Semana passada nós passamos pela emoção e satisfação de ir buscar a cadeira de rodas motorizada do Jota.

Já já eu conto a parte da emoção, mas antes, vamos à satisfação de ter disponível, pelo Sistema Único de Saúde (sim, o SUS... aquele mesmo que todo mundo se acostumou a falar mal) esse mega acessório para facilitar a mobilidade.

Quando o Jota começou a precisar mais da cadeira de rodas pra sair de casa (em casa ele caminha com a bengala, mas pra sair é bem complicado), nós fomos atrás de comprar uma cadeira de rodas manual um pouco melhor, porque a que temos aqui em casa é daquelas bem toscas, sabe? Bom, descobrimos que o custo de uma boa cadeira de rodas manual, que ficaria mais leve para eu empurrar, custaria em torno de dois mil reais. Não é um valor impossível de comprar, mas ia precisar de uma certa economia aqui em casa e tal. Foi quando soubemos que o SUS dá não só cadeira de rodas, mas também órteses e próteses necessárias aos seus pacientes.

Bom, aí fomos atrás de como conseguir a cadeira via SUS, afinal, o SUS é para todos os cidadãos brasileiros! Descobrimos que, para encaminhar o pedido da cadeira de rodas, era necessário passar por uma consulta com um médico do SUS que prescrevesse a cadeira de rodas. Fomos ao posto de saúde aqui perto de casa e conseguimos a receita com a médica que já nos acompanha. Sim, nós temos plano de saúde e uma neurologista que nos acompanha de perto, mas também temos cadastro no Posto de Saúde do bairro. É importante fazer isso gente!

Com a receita em mãos, fomos atrás de onde entregar esse pedido. Aí foi um pouco mais complicado, porque o pessoal do Posto era muito desinformado e falaram que o SUS nem dá essas coisas... Como eu sou teimosa, fui atrás dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e da Secretaria da Pessoa com Deficiência. Foi quase um mês indo e vindo e ligando pra diversos lugares pra descobrir que, aqui em Porto Alegre, tinha um Posto de Saúde específico (quem é daqui conhece o postão do IAPI), que recebia os pedidos de cadeiras de rodas. Em julho eu fui lá conversar com a Assistente Social (que aprovou o pedido após analisar nossa renda e nossos gastos) que me informou que o sistema mudaria e cada Posto de Saúde de bairro vai poder encaminhar o pedido direto. Isso é bom porque facilita pro paciente. Mas é ruim porque o pessoal dos Postos não estão preparados ainda. Não sei a que pé está, mas vale a pena correr atrás.

Lá a gente tinha que escolher um centro de reabilitação pelo qual iríamos receber a cadeira, treinamento e reabilitação necessária para o uso. Escolhemos a AACD Porto Alegre, mais perto de casa. Em setembro fomos chamados para dar encaminhamento à cadeira. E foi nessa consulta que o médico responsável (da AACD) perguntou pro Jota se ele conseguia tocar sozinho a cadeira. Como o Jota não consegue tocar sozinho, eles acharam melhor pedir, além da manual, uma motorizada, porque é importante dar autonomia ao paciente. Adoramos!!!! Além disso, ele foi encaminhado pra fazer reabilitação (fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, urologia e quem mais precisar) na AACD.

Fomos avisados que podia demorar um pouco. Mas, tudo bem, afinal, uma cadeira de rodas motorizada nem estava no nosso horizonte (nove mil reais gentes...). Eis que, na semana passada, no mesmo dia em que o Jota teria a consulta com o urologista da AACD, nos chamaram porque a motorizada tinha chegado. Veio antes da manual até.

Bom, e aí vem a parte da emoção. Chegamos mais cedo porque tínhamos a consulta num horário e a retirada da cadeira depois. No corredor dos consultórios dava pra ver uma fileira de umas 50 cadeiras motorizadas, novinhas, com o nome de seus futuros donos escrito na caixinha do carregador da bateria. Que nem presente de natal embaixo da árvore. Mas muito melhor que isso!

Na sala de espera tinha pessoas de diversas idades e com deficiências diferentes também. E foi incrível ver a diferença no semblante das pessoas antes de serem chamadas para pegar a cadeira e depois, quando saíam da sala já tocando a sua própria cadeira. Maridos brincando que iam fugir das esposas, filhos dizendo que iam correr na escola, jovens sorrindo e dizendo que agora iam dar menos trabalho pros outros. Foi um momento daqueles que não tem preço, sabe? Poderia ter ficado ali o dia inteiro, só olhando as pessoas ao receberem suas novas parceiras diárias. Suas facilitadoras. Sua liberdade!

Mas o Jota foi chamado e nós entramos com uma senhora e um menino que também foram buscar suas cadeiras. Assistimos atentamente a explicação sobre o uso da cadeira e o Jota saiu de lá também tocando a sua também.

Todos que saíam de lá se despediam dizendo: Aproveitem! 

Porque ter liberdade para se movimentar é ter liberdade pra aproveitar mais da vida. Poder ir sozinho ao banheiro ou sair pra namorar é aproveitar. Nós saímos de lá fazendo planos. Dar mobilidade é dar esperança também. É proporcionar construção de planos. E isso é essencial ao ser humano!

Nosso primeiro passeio foi no Parque Farroupilha, nossa querida Redenção, aqui perto de casa. Agora perguntem pro Jota o que ele achou da experiência de "andar sozinho". 

Até mais!

Bjs

 

p.s.: Se você precisa de algum dispositivo de mobilidade (muleta, andador, cadeira de rodas, cadeira de banho) e o pessoal do seu Posto de Saúde não sabe te orientar a conseguir esses itens pelo SUS, nos informe que nós tentaremos ajudar a achar o caminho na sua cidade.  

Fonte: Bruna Rocha

Tags: AACD , acessibilidade , cadeira de rodas , esclerose multipla , mobilidade , sus

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